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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Dos ditames do amor próprio

Flor, nossa querida flor, resolveu ligar pra ele. Marcaram um encontro.

- Bom, pra começo de conversa, você é a pessoa mais instável que conheço. Nem se seu signo fosse gêmeos, eu poderia entender tantas dúvidas. Pessoas crescidas tem dúvidas, mas não se deixam mover por elas. A gente enfrenta, a gente tem coragem e vai à luta, sem fazer uma série de testes e comparações, nas quais estão em jogo emoções de outras pessoas. Isso é cruel. Isso é muito cruel. Sei que você tem uma dor, eu sei. Uma dor muito grande, mas a vida também é feita de dores. Todos nós temos dores, mas também temos o futuro. A escolha é sua. É sua dor quem irá te mover?

Os olhos dele a olhavam com silêncio. Flor continuou.

- Até essa inércia em admitir o que sente. Não pra mim, mas para você mesmo. Tenta, pow! Juro, era insuportavelmente chato ter momentos efusivos, megamente felizes com você, sentir que estava tudo bem, tudo tão bem, e em alguns instantes ouvir suspiros que eu sei que te queimavam por dentro. Sim, esta é minha teoria sobre suspiros. Esse lance de ter tudo dentro e querer colocar pra fora de alguma forma, porque está incomodando. Ai, você suspirava para tentar refrescar o coração, a alma ou sei lá o quê. Mas não funciona, cara. Não funciona.

- Flor, eu...

- Eu não terminei... E não, nunca mais compare gentes e seus predicados com celulares. Pessoas não são celulares com melhores adjetivos. Mesmo dizendo antes que é uma metáfora absurda, isso não anula o fato de ser absurdamente idiota. Me parece ser frustrante não saber o que se quer, não ter segurança e não ter as rédeas do próprio querer. Se você quer, faça, tente, mas não machuque quem está ao seu lado. Aliás, pense mais antes de fazer. Eu não pedi para entrar na sua vida, você não pode blefar comigo, dizendo que me ama e que quer construir sonhos ao meu lado, me levar pra viajar e mesmo assim conversar sobre ir para Paris com outra mulher, que te "acessa mais do que eu". Não, não pode. Vivemos numa sociedade monogâmica, a menos que não seja acertado assim. Pois é, as pessoas se envolvem. Eu não te amo... Tá, eu posso tá começando a te amar e eu te queria comigo. Eu estava ali, tentei. Você é tão-tão instável. Como eu podia dizer sim, me diz? Como eu podia dizer sim, vamos morar juntos, pra alguém que terminou comigo duas vezes para ir "testar" outros "celulares".

- Olha, sobre isso dos celulares, eu te disse que era uma comparação terrível, mas quis ser didático, eu me abri com você...


- Não importa. Estou me abrindo com você agora. Estou jogando fora toda a capa de fortaleza com a qual me cobri até hoje. Eu sou única, cara. Única. Eu mereço mais que isso, muito mais. Quando eu digo que sei das qualidades que tenho, é porque lutei para enxergá-las, é porque sofri, fui rejeitada, traída, humilhada, mas eu me levantei e consegui recuperar minha vida. Todas as vezes. Eu tomei conta dela. É isso que eu faço e por isso eu fico bem.  Todas as brincadeiras sobre o que digo de mim, sobre o que você brinca ser "meu ego inflado" são verdade, são o que acredito. Sabe por quê? Porque eu me amo, porque eu confio em mim. Não foi fácil, mas eu me reestruturei todas as vezes e não vou cair de novo. Aqui está o meu lindo sorriso. É um sorriso de eu mereço ser feliz, meu chapa. Me amo mesmo. E é por isso que eu realmente me pergunto se quero voltar com você. O meu coração diz que você é o cara mais legal, divertido, alto, bonito, de sorriso lindo (seja meio-sorriso, seja de lado, de frente, inteiro)... Você é o mais-mais encantador, esforçado, criativo, trabalhador, bom de cama que já conheci. Mas você não luta por mim, você não me passa segurança. Quem quer, faz tudo isso. Então, eu também não quero estar com você. Eu quero alguém que me coloque como prioridade. Sim, dói dizer isso, mas é o que sinto. Se é para escolher entre mim e você, então já sabe. 


sábado, 12 de maio de 2012

Dia de mãe

Eu acho isso de datas comemorativas meio uó e tal. Mas para além da mercantilização dos sentimentos, ao menos serve para parar e refletir sobre certas coisas - ou não. É um enxame medonho de "Parabéns, mamãe!", "Feliz Dia das Mães", e blá blá blá. Embora todxs saibamos que mãe - e pai também - são pessoas especiais pelo carinho e dedicação que tem conosco. Essa instituição “mãe”, que é atribuída à mulher, é valor social. Sim, eu sei, não é só valor social. Porém, porque a mãe cuida mais? Nós, xs filhxs, quase sempre somos meio ingratxs. E me incluo bem muito.

Sim, sim. Falar da minha mãe, não é fácil. E nem vou postar foto dela, porque ela não gosta. Tipo, eu começo a escrever, ai vem logo aquele chororô. Num sei por quê cargas d’água [correm no rosto]. Costumam chamar emoção. É que a minha é tão boa e faz tanto e tanto e tanto por mim, que eu fico me sentindo bem como sem retribuir. Não digo boa – oh! aquela candura de pessoa, dotada de toda a bondade do mundo. Não, claro que não, vale ressaltar. Afinal, ela é humana, como todo mundo. Deixemos as idealizações para lá.

Houve até um tempo em que eu pensei que ela não gostasse mais de mim, logo quando meu irmão nasceu. Contudo, o tempo mostrou que ela se resigna e me ama muito. Mas, porra! Me diz porque tem que ser assim? Ela deveria deixar a gente sofrer mais, não ser tão forte e apoiadora, não fazer tanto as nossas vontades, não nos dar tanto, dizer mais nãos... Sim, somos ingratxs. Deve ser culpa também do patriarcado, que molda até esse amor demais. Mermã/o... Eu num digo é nada.

Desculpem o desabafo. Detesto essas coisas de diári(nh)o. Os meus não duravam mais do que dez folhas. Tava precisando. Me ventilou. Aí, vem essa época de um dia, solamente um dia, com aquele clichê de que deveriam ser todos os dias. E não passa de clichê. Jáque no “todos os dias”, quede lembrar. E não escuta mais, porque ela sempre, sempre tem razão. Então só me lembro da música do Caetano, Coração Materno. Sempre lágrima. Foda. [Tá, tô mais brega que o normal. :P]

♪  ♪  ♪

Chega à choupana o campônio
Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Rasga-lhe o peito o demônio
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sagrando da velha mãezinha
O pobre coração e volta a correr proclamando
Vitória, vitória tem minha paixão
Mais em meio da estrada caiu
E na queda uma perna partiu
E a distância saltou-lhe da mão
Sobre a terra o pobre coração
Nesse instante uma voz ecoou
Magoou-se pobre filho meu
Vem buscar-me filho, aqui estou
Vem buscar-me que ainda sou teu!

♪  ♪  ♪


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Dizem que as flores nascem na primavera...


Dizem que as flores nascem na primavera. Como por aqui, esse negócio de estação do ano é besteira, me conformo em usar do título e da forma. Seja nos textos, nas roupas, ou mesmo, nos amores vividos ou não.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A partida / A tormenta







A partida

Já não mais via explodir estrelas nos olhos dele. Mas foi quando viu marasmo naquele meio-dia que sentiu algo dentro de si estremecer. Falou curto, até feio, como já tão bem a habituara. Sentiu como se comesse catchup c
om gengibre. Um gosto de culpa e incapacidade fechou e ardeu sua garganta.

-Não dá mais!

Ele soltou límpido. Calada, ela sentia-se morrer.

- Se você quer assim...

E juntando primeiro roupas, tão bem espalhadas por todo o quarto, ele se irritava.

- Você viu meu modem?
- Está no bolso da sua mochila.

Ela começou a juntar os cacarecos tecnológicos e efêmeros que tanto deram prazer e felicidade momentâneos ao ser amado. Seria ela só mais um, perguntou-se. Buscava oxigênio, tanto para evitar que aquela água toda se caísse, como para continuar existindo, respirando. Crescia os olhos. Sentou na cama. Investigava cada ação supranervosa daqueles dedos trêmulos que noites atrás passeavam por ela.

- Você viu aquele par de meias ver...?
- Tá na segunda gaveta, do lado esquerdo.

E perseguia com os seus, aqueles olhos que evitavam lhe fitar. Como era lindo aquele olhar. Como foi lindo quando, por uma força maior que brotou dentro dela, não mais teve medo e o encarou, enco
rajando-o. Na festa, no quarto, no altar.

Queria poder pedir ao menino travesso destino para deixar de lhe jogar pedras naquela frágil vidraça, que ainda chamava coração. Levantou a cabeça e gritou com o olhar. Queria mesmo gritar ali, jogar-se a seus pés, pedir que ficasse, que repensasse, que a amasse indefinidamente, que tivesse um filho com ela, que...

- Amor...

Aquele quase
amor pronunciado pelos lábios elásticos que ela amava a fez saltar de seus devaneios. Mas sabia que a chamava assim por hábito. Puro, estúpido e assassino hábito. Ele se refez do ato falho e perguntou outra pergunta qualquer que ela não escutou, porque descobriu que perdia os sentidos. Descobriu ali que era ele quem integrava os seus sentidos. O mirou:

- Oi?
- Achei!

Eu até cantaria pra ele se assim me pedisse, eu até passaria o dia fazendo compras se assim desejasse, e
u até pegava a cerveja na geladeira se... E logo um pedaço d’água partiu a dignidade que tão bem estava protegendo-a. Depois um soluço, seguido de outro e de um punhado deles, convulsivamente, escondia-os entre os dedos.

Ele a agar
rou imediatamente.

- Meu xuxu, eu não queria que fosse assim...
- Não estou pedindo nada a você. Só não posso evitar, só isso.
- Não chora, assim você me deixa triste.
- Você já está triste, só está se protegendo atrás dessa indiferença toda inquieta.
- Você sabe que eu...

Ela arrastou a mão pelo rosto molhado, enxugando-o parcialmente. Embora ainda sofresse, uma paz a fez vibrar um pouco.

- As chaves do carro estão na mesinha do lado do sofá. Depois a gente discute sobre as coisas pequenas, já que não temos crianças por quem chorar.
- Minha flor, como eu queria...
- Adeus
- Te ligo!

E ele terminou de juntar as mesmas coisas que eram dele, quando ele era dela. Rumou para a porta.

Ela ficou ali, sofrendo com a ida dele, parada, dormente, partida.










A tormenta

Sentia que a vida estava muito completa. Nada era emocionante naquela perfeição toda. Amava-a e sabia que tudo estava indo tão puramente bem que era sacal. Pôs em prática a decisão na hora mais quente do dia. Falou curto, até feio, como há alguns meses andava fazendo. Viu névoa nos olhos dela. Mas evitava a olhar.

-Não dá mais!

Ele soltou límpido. Calada, ela sentia-se morrer.

- Se você quer assim...

E juntando primeiro roupas, tão bem espalhadas por todo o quarto, ele se irritava.

- Você viu meu modem?
- Está no bolso da sua mochila.

Ele não podia acreditar como o amor da sua vida estava ali indiferente, juntando suas coisas mais caras e mais legais. Seus prazeres de horas, aos quais ela vivia o recriminando. E agora ela estava ali, catando-os, como num ritual. Mesmo olhando sorrateiramente para ela, enxergou nervosismo naquele corpo esguio, que parecia trêmulo. Aquele corpo que ele tanto amava, que lhe sorria impecavelmente. Como a adorava. Seu jeito, seu porte, sua inteligência.

- Você viu aquele par de meias ver...?
- Tá na segunda gaveta, do lado esquerdo.

Achava inacreditável como ela poderia ser tão organizada, tão metódica, tão sistemática. Ele arrastava-se pegando cada coisa, embora vez ou outra, a visse sentada, com aqueles olhos pequenos. Como os amava. Desde que naquela festa escura, eles se iluminaram à medida que eles se paqueravam. Até como o olhava antes de dormir, carinhosamente, pedinte, intimadora. Ou ainda quando esqueceu-se que era um, pra ser dois.

O desejo de ficar queimava-lhe o peito. Mas quem sabe aquilo não fosse o melhor para ambos. Não queria admitir pra si próprio, mas custava segurar o coração que pulava danado, feito garoto tinhoso querendo fugir. Acreditou loucamente que a separação seria o sopro de confetes de que precisavam. Lembrou do tempo em que esteve na marinha, e era como se um daqueles nós que apreendera estivesse agarrando as suas cordas vocais. Soltou:

- Amor...

Como pôde ter dito aquilo. Iria chamá-la pelo nome. E sem querer chamara-a de amor. Era tão dolorido chamá-la pelo nome. Não era só hábito, era um vício constituinte do amor que se agrega na linguagem da pessoa. Ferida inconsciente. No fundo, não estava mentindo. Tinha, desesperadamente, que perguntar qualquer besteira para disfarçar seu ato falho. Falou e ela pareceu não o escutar.

- Oi?
- Achei!

Ele viu que ela estava mesmo trêmula, notadamente. Porque a fazia sofrer assim, perguntou-se. Porque se fazia sofrer assim, perguntou-se. Lembrou dos tempos primeiros e dos seus planos. De como a amava pelo que era, pela beleza cheia, repleta de espertezas e aspirações, por sua vontade de salvar o mundo e por como tratava tão ternamente as pessoas. A quis exultante, a queria exultante. Caiu dos seus pensamentos quando ouviu um soluço da mulher que mais amava na vida. Correu para acalantá-la.

- Meu xuxu, eu não queria que fosse assim...
- Não estou pedindo nada a você. Só não posso evitar, só isso.
- Não chora, assim você me deixa triste.
- Você já está triste, só está se protegendo atrás dessa indiferença toda inquieta.
- Você sabe que eu...

Antes que ele tivesse coragem para juntar os pedaços de sua vida no chão ou enxugar o rosto molhado dela, ela mesma o fez. Mas viu o rosto dela se iluminar, preocupando-o.

- As chaves do carro estão na mesinha do lado do sofá. Depois a gente discute sobre as coisas pequenas, já que não temos crianças por quem chorar.
- Minha flor, como eu queria...
- Adeus
- Te ligo!

E ele terminou de juntar as mesmas coisas que eram dele, quando ele era dela. Rumou para a porta.

Foi só quando se viu de costas, que um pedaço de água arranhou desde o olho até o canto da boca. Pegou o carro e durante todo o caminho, a vida ficou cinza, embaçada, tormenta.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Varreduras sem fim


E já tinha varrido uns pedaços de pensamentos imbecis, caídos ali no quarto. Deixou de remoer hahahas. Queria uma tristeza menos pesada. Foi que lembrou que o querer é pouco caso pra quem fica paradinh@. Viu que tinha muitos bibelôs e todos olhavam pro nada. Viu que tinha muitas cores, mas nenhuma lhe ardia nos olhos. Viu e vendo, pensou que podia ousar, como já lhe dissera em quadradinhos, Alan Moore.

Tinha uma cortina de quarto, florida e gaiata, que ia e vinha, revelando lembranças que não queria ter pela frente. Podia se disfarçar de ameba, mas mesmo as amebas, criminalizadas que são, deviam sofrer por não saber o que eram, e não saber o que era saber. Enfim, no fundo delas, na sua assexualidade, incapazes de amor que eram, deviam sentir alguma coisa parecida com falta dessas coisas que a gente gosta e odeia.

Se tudo é só ponto de vista, então o nada é tudo, se eu quiser que seja, concluiu. E olhou pra cadela que vinha em seu encontro, olhos lindos, chocolate, focinho pedinte, afeto demonstrado no rabinho balançante. E viu pureza ali. Lembrou de São Francisco, lembrou dos laboratórios, lembrou de Madagáscar. Deixou de fribilar hahahas. Era muita coisa perdida, por se encontrar. Era muita coisa achada, por se perder.

Dar unidade á ideias dispersas era tão sacal quanto conversar com eles ou ouvir Lulu Santos. Era melhor assim, caos bonito, pensamentos jogados, confusão faxinada de si. Resolveu que ia comer dicionários para dar-lhe sustança pro mais a frente. Mas recordou que tinha de ir com calma, pois que se lhe sobrassem versinhos, pedantismo cruel podia parecer. Tomou por acatamento, retardar a refeição para mais além.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Por que flores também nascem em destroços...


“Alguém escreve para tratar de responder às perguntas que lhe zumbem na cabeça - moscas tenazes que perturbam o sono; e o
que alguém escreve pode adquirir sentido coletivo quando, de alguma maneira, coincide com a necessidade social de resposta”.
Eduardo Galeano

Um amigo me ensinou que transformação social começa em você. E pra ensinar não é preciso só se vestir de discursos. Nem basta só levantar o debate. Seja em palavras, atos, alegrias. E você fica se pensando. E pensa. E reflete os atos cotidianos, as falas de cada hora, os olhares em pormenores.

Esse anseio, tão externo quanto interno, de ganas por mudar, de remediar problemas seculares, de reparar injustiças milenares, de acabar com discursos opressores vigentes e tão internalizados, até por quem se propõe a ir contra eles, é meio puro. É feito luz que brilha na alma humana. É feito flor, de pétalas macias, que fica a embelezar caminhos. É feito esses laços bons que te fazem encontrar pessoas com essa mesma inquietude. Pessoas que tanto e também carregam o tremor guevariano diante do injusto, das pequenas e grandes guerras, da dominação, da supressão dos sentimentos mais belos que a razão às vezes tapa. Comunhão, união, fraternidade, coletividade, respeito e cuidado pelo outro.

Repensar tradições, não engolir ideias prontas, varar por caminhos do outrem se faz necessário no mundo onde, como diria Drummond, “Caim não mata mais Abel, coloniza-o”. Me recuso a aceitar as verdades de cima, as pilhérias de quem é dono, as pancadas diárias de um destino inventado para dissimular e esconder conflitos e desigualdades sociais.

Não queria mais ver cansaços dissolvidos em fartas gargalhadas vazias, pra gerar esquecimento do fardo maior. Não me vejo dentro da prisão quadrada e brilhante, que devia ser janela de uma expressão popular. Da fala do eu, do nosso, do comum, sem critérios escusos de escolha de conteúdo. Não me ouço na caixa de som abafado, onde as falas comuns são minimizadas, as canções repetitivas, e a inteligência humana insultada, se aproveitando de um sistema que faz questão de dar poucas letras ao meu povo, e que lhe recusa até mesmo o sentar nos bancos arbitrários da instituição escola. Não me leio nessas páginas caras, que pro meu povo, faminto de tanto e sedento de alteração, enquadram uma segregação, posta pela educação qualificada, historicamente negada pelo Estado.

Pois que falam do otimismo da rede, que integra e democratiza... Mas mais uma vez, a falta de acesso às letras, aos conceitos e aos entendimentos formais privam meu povo de aprofundar o desenvolvimento de maneiras novas de expressão tão multiplicadas e que alcancem o mesmo meu povo, tanto e quanto a comunicação que não nos representa e não fala por nós. Embora, iniciativas brotem, frutíferas e consoladoras.

Chamam hegemonia, esse impor sobre o meu povo. Eu chamaria puro medo disfarçado. É mais fácil mesmo atomizar. Uma mente só jamais terá a mesma força que muitas mentes. O poder da mão com mão, de muitas mãos, é sempre quem muda o que está errado. Eu queria encher meus olhos desse tempo em que o círculo vai ser a organização social primeira, em que as cirandas não vão ser mais só alternativas.

E fica essa vontade, que, ainda bem, não é só minha, de abrir uns milhões de olhos, de gritar pruns milhões de ouvidos, pra fazer mover uns milhões de braços a clamar junto e mais bonito pelos ventos formosos da liberdade. Acho que vou continuar revendo sempre as ações, avaliando o meu certo, socializando luta, visões, contentamentos. Acho, não. Vou. Pois “eu sou muitas pessoas destroçadas” (Manoel de Barros), e quero reverter essa indignação em perspectiva...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Amar e amar e amar...


Amo e vejo que amo na poesia de umas coisas chatas. Chatas como essa lágrima teimosa que aprisiono no mesmo olho que te vê. Vê e não pode te sorrir tão fartamente, como quem diz vem e me abarca com o teu. Amo. Descubro e esqueço que te amo, porque te perdi por algum pedaço de vida mofado. E tem umas veias que vivem saltando, como se me cutucassem pra eu te chamar. Amo e não posso ser mais autosuficiente sentimentalmente como pensei que pudesse.

Ando querendo transformar aindas em agoras. Ando querendo teu queixo, teu dente, teu indicador. Lembro de quando era criança e olhava a cacimba no fundo do quintal. Tinha medo daquele profundo, daquele escuro, tinha medo de cair, de me afogar no lodo, sem ar nem esperança. Me eras tão inocente e furaste meu peito. Pensei que cicatrizes assim só existissem em letras de músicas bregas. Às vezes abstraio esse amor e penso que ele morreu, mas no fundo está lá, só assistindo TV, abobalhado. Me assistindo viver, de parada em parada, sucessões, deixando eu me enganar. Deixando eu acreditar que o novo já vem, quando na verdade, meu desconhecer de certezas é a vontade do velho renovado.

Teus olhos são a cacimba do quintal da minha vida. E já fico aqui me afogando, lembrando deles, serenos demais que são. Preciso amar e amar, convulsivamente. Sempre fui esse fraco canto da pessoa humana. Sempre não me contive em emotividades. Até quando necessitei da razão, precisava estar só.

Não quero mais preencher um lugar. Não quero momentos intensos seguidos de profundos vazios. Não quero mais variar pensamentos. Quero completude. Quero uma razão que acarinhe a minha, que a bote pra dormir e a acorde com beijos ardentes e ternos. Quero um eu para depositar-me. Se amar é perder-se, confesso que amo e só quero um. Permaneço dona de minha vontade, no entanto, meu amor é, em pedaços, teu. Quero ser livre dentro de ti...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Minha gestalt alterada por costumes bethanianos


Fico pensando se amor é só um mesmo. Bomba boom que destrói mundo e só deixa o pó do encantamento. Fico pensando se a gente sempre acha que cada vez é a certa, e que não vai mais passar. E se essa passa, ficamos achando que virá outra, mais intensa, mais obviamente profunda. Ou pior. A vez passada se incrusta nas carnes da alma, e ai xuxu, não há nova vez que remova. Percebi de soslaio, que a vez se entrelaça mesmo ás veias do peito, quando a dor serve de linha. Aí o negócio é duro. A cicatriz tatua verões e invernos.

Alivia-se com tentativas, novas vezes pausadas, alegrias passageiras. Tudo regado a festinhas vazias e choros posteriores.
Fico com medo de minha vez ter passado, mesmo agora tendo em vista novas possibilidades de tentar vez. Vez é uma forma de ver. Ter vontade de escrever sobre. Rezar felicidade pra ele, ainda que você não tenha religião. Engolir orgulhos, a cada vez que lembra que ainda vive em função daqueles dias. Costumes bethânianos. Estourar-se de raiva de saber que é a lembrança dele que te embala o sono todas as noites. Desistir e voltar a desistir. Passar tempos sem ver pra cristalizar a dor.

E quando avista, entorna sobre si interpretações que te façam fotossíntese até a próxima vez que ele lhe regue com o olhar.
Então é chegada a hora de esquecer tudo e aceitar o que se tem. Pelo menos até... Enfim, é melhor suprimir. Fico com minha amiga Beauvoir, que me diz que “é tão fatigante detestar-se alguém que se ama!”. Fato.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Se afogar


Porque era um pedaço de tapioca enrolado num saquinho de sabonete Alma de Flores. Todo o gosto fora aliterado. Todo cheiro agora era lembrança não sentida. E véus turquesas embalavam momentos sem tom, música de silêncios , vertentes, estalidos. Afrouxou uma echarpe que sufocava menos do que sua consciência perturbada.

E foi pra chuva, e veio o sol, e virou pó ali mesmo. Encontrei o amor quando vi meu coração gritando em teus olhos, pensou. E ele estava lá. Não podia desviar. Saiu do prédio com o guarda-chuva e a garganta secos. Queria virar arco-íris ali. Queria que ele sumisse. Da rua, de dentro dela. Um fogo gelatinoso invadiu-lhe as veias, a medida que apertava os passos e o peito contra a pasta. Não queria virar e ver que em seu encalço estava um amor vestido com sua blusa preferida.


Um nome piscou em seus ouvidos. Era o seu. E aquela voz que já batera na porta da orelha, que já se tornara banal e rotina, agora fazia-se fumaça nos chuviscos que começavam a cair. Outra vez, aquele som de cordas vocais, que no começo eram melodia. Aquele grave que quase conseguia exprimir a maciez emborrachada dos lábios dele. Teria que enfrentar. Virou.


- O-iii!, gaguejou. - Desculpa, não tinha te visto... quer dizer, te ouvido... enfim, você quer falar comigo? Ainda conseguiu falar, antes dele começar.


- Olha... eu... quer dizer, você... Você tá com umas coisas minhas desde aquela época, sabe? Não tinha te pedido antes, pra não incomodar... Mas tipo... Agora eu tô precisando, é...


E reinou aquele silêncio burguês, de quem para uma mentira no meio pra se reavaliar. Ela conseguiu puxar pro pulmão cansado um ar que ia passando naquele momento infeliz.


- Sabe, é que eu tô com um pouco de pressa, Matias. Tenho dentista às 15h e fora isso...


Ele interrompeu.


- Mas você não vai passar em casa pra almoçar?


E como se todo o dito fosse a compilação de únicas forças que lhe restavam, deixou-se cair numa elevação da calçada dura, que mais parecia um banco.


– Bom, eu vou, mas é bem rápido e...

– Eu posso te acompanhar... Aliás, posso te levar lá.

– Eu acho melhor não!


E o frio não conseguiu evitar que o rosto redondo da moça se esquentasse. Era a bochecha vermelha menos vermelha que ele amava. Ele arriscou-se a tocá-la. O castigo veio em jatos d’água. Como ali tudo já tava rubro - fosse a face da pequena, o amor querendo pular ou a camisa do rapaz -, um bruto de carro vermelho ergueu uma poça em cima do casal.


Palavrões esquecidos. Ela nunca perdera aquele jeito lindo de xingar o que fosse. A menina teve de aceitar a proposta. O carro era o mesmo. As mesmas músicas, o mesmo breu à luz do dia. No caminho ele elencou as peças esquecidas. Pequenas bobagens, das quais certamente não tinha necessidade. Chegando, pediu a ele que esperasse.Desceria em meia com as tais besteiras. Não obedecer era uma de suas maiores virtudes. Subiu. A porta aberta, a sala arrumada, ela mudara. Os pingos caiam no banheiro. Foi ao guarda-roupas, arrancou cabides, vestidos, lembranças. Espalhou tudo na cama, juntou e arremessou pela janela.


Cada peça de roupa caia, como se ela chovesse pra ele. Deslumbrou-se. Quedas multicolores, pedaços de pano que serpenteavam contra o vento. Uma a uma, até que não sobrasse nada. Somente o perfume dela na rua. Quando saiu do banho, em choque com o que via, correu para contra ele em um ataque furioso.


Imóvel, sentado na cama, olhava aquele corpo esguio se debater de fúria, atacar seu rosto, lhe bater no peito. Quem sabe o coração saltasse pra fora. Agarrou-a. A toalha desabou. Ela também. Agora era sua. Minúscula, indefesa em seus braços. Era o que sempre quis. É afinal o que todo homem quer.


Desde que sua pequena libertara-se buscando o novo, ele queria quebrar seu sucesso, rasgar sua capacidade, pra que ela fosse só dele.


Ambos caíram numa convulsão de lágrimas. E poderiam ter misturado-se em pedaços de carne ali mesmo. Ele poderia ter mordido sua raiva. Ela poderia ter lambido sua estupidez. Mas não. Cresceram. Afagaram um ao outro como quem sente sede. Cuspiram todo o amor empurrado pra uma dispensa vazia e empoeirada. Gastaram recursos inválidos. Tornaram-se parte de um não. Gritaram vergonhas alegres. E esqueceram-se das bobagens. Ela sentiu um fim e descansou.


Enrolados, no lençol choroso, penalizaram-se. Confissões aturdidas, verdades bem ditas, perdões mal pedidos. E o homem tomou forma espiral. Enrolou-se como o cacho da cabeça da amada, num colo quente, com sorriso de ateu. E chorou, mergulhou e emergiu, tão cansado e cansado e cansado de ter possuído e não ser o dono.


Ela o segurou firme como quem não deixa que o outro caia. E beijou o seu sal. Exigiu um respeito carinhoso, mais justiça e massagens nos pés. E se pressionou contra ele. Eram ali camadas. Eram uma coberta misturada e aflita. Houve outro beijo e cada um adormeceu com suas certezas. Ela precisava de novas roupas.