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terça-feira, 23 de abril de 2013

[Amor em Tempos de Redes Sociais] Capítulo 8 - Missiva de quem quis liberdade




É uma sensação de impotência tão grande, tão cheia. Você perde aquela vida. Perde aquela vida inteira. Flor imaginava até onde iria aquilo. Até o momento em que a vida pedisse coragem o bastante para pedir demissão do amor. Sair dali. Daquele lugar comum, onde os corações estavam frios, nem mesmo batiam um pelo outro. Eram só músculos cumprindo o seu papel.

Lembrou de Leminski. “Isso de a gente querer ser exatamente o que a gente é, ainda vai nos levar além”. Tão frágil essa vida de dois. Que se acaba quando você menos acorda e vê que não é sonho e quer voltar pro sonho. Quando seu olho quer brilhar e sua pele não mais arrepia. Aquele sorriso vira tédio, aquela fadiga vira regra. E o tesão acaba. Decidiram consumar as diferenças e seguir seus caminhos incertos, mas o desapego não os encontrou e as mensagens choviam, os dedos tremiam, as chamadas apitavam, o coração desconcertava-se. Ela pôs fim.  Papel. Poderia escrever uma carta, mas os tempos e o amor eram outros. Abriu o e-mail.

Você me amou - se é que amou - pelo que eu era, pelo meu jeito, pela minha forma de pensar, pelas minhas atitudes, pelo que fiz por você, pelo meu carinho. Por tudo isso você me amou. Então porque quis me mudar? Realmente, me moldando ao seu ideali, você não me amaria. E iria acontecer o que sempre aconteceu. Você iria cansar... Cansar e buscar outra, pra depois voltar pra mim, porque eu era a sua segurança. Você nunca foi meu. E nunca iria ser. Sua alma é livre, mas sua mente exige prender quem vive ao seu lado. Porque o modelo que você tem, é o modelo que você segue. Você crê que as pessoas sejam como você, que ajam como você. Mas não! As pessoas são diferentes. Eu sou diferente. Eu também sou livre. E você quis me podar, me reprimir, me oprimir, me modelar... Quem ama, ama pelo que x outrx é. E foi por isso que você me amou. Se você busca modelos perfeitos, sinto lhe decepcionar, mas nunca vai achar. Eles não existem. O que existe é o amor. E você encontrou. E jogou fora. Desrespeitou, mentiu, traiu.

Deveria ter vergonha por causar tanto sofrimento a tanta gente. E gente que te perdoou e te aceitou/te amou, mesmo assim. Mesmo depois de tudo. E o que você fez? Rejeitou... Não aceitou por coisas que sequer são defeitos, são só jeito - que você não aceita, por simples dificuldade de entender/aceitar as diferenças....

Espero que seja feliz. Espero também que sua mente se abra, e seu coração entenda. Eu te amo, como nunca amei antes, mas, entenda bem, eu nunca vou aceitar não ser livre. Desculpe. Espero que encontre a felicidade, depois de entender que a liberdade é necessária. Não existe amor, se te sufocam. Ele murcha, ele morre...

E chorou, enxugou, enviou... Desfecho. Iria aguardar a resposta. Se viesse. :T

sábado, 29 de setembro de 2012

[Amor em tempos de redes sociais] Capítulo 7 – A agonia


Carnaval de Arlequin - Jean Miró

Vou jogar Mário Bros até de madrugada pra ver se enxugo essas lágrimas, ou mesmo, resseco elas com o brilho medonho desse colorido virtual, pensou. O filme que ele indicara numa conversa tacanha, de uma rotina normal, amorzinho, paixão, a fez chorar, compulsiva, latente, tempestade. E vieram cem, sete lembranças. E ela pensou que jamais ia esquecer. E pensou em fugir, mas não tinha pra onde. Poderia afundar-se numa linha de tempo e publicar imagens chorosas de cores frias. Poderia postar pontuações que simbolizavam tristeza. Poderia piar citações viscerais e gritar, silenciosamente daquela tela, uma depressão que nem precisava ter.

Ele fora dormir. Avisara por sms. E ela ficou ali, pensando. Pensou que pensar era a coisa mais terrível do mundo para os relacionamentos. Quando tudo era perfeito, caia-se a vontade de que o drama deveria imperar, vingar, destruir. E, com isso, o então viria. Cheio de novos, pormenores. Contudo, haviam as lembranças tristes que a faziam pintar as unhas de negro ou de pálido. Ou de negro e pálido. Refrescou-se num suspiro e recordou alegria. Sabia que poderia estar com outro, mas o querer dela era tão dele que até subjulgara-se, por vezes. Lembrou de quando podia controlar-se. Fechar uma janelinha apenas e dormir tranquila. Agora não. Condenou-se. Podia fechar janelinha, mas a angústia se ia pra cama com ela, apertando gogó, cantando Bethânia, chorosa.

E ela, que fora forte, que perdoara, que sentiu frieza, racionalidades, enquanto comia batata-frita em motel de quinta, e nem sequer derretera-se em água e sal, desabou. Quando o choro é tempestade, nem mesmo pular em cogumelos de pixels o contém. Nem podia ligar para ele, abalar segurança. Nem podia dizer para ele que perdoar doía. Ela estava ali, tentando ser feliz, mas a memória era má.

Tinha um coração e um teclado. Tinha uma tela que se abria para o mundo. Mas o mundo, aquele mundo de hipertextos, tinha muito dele. As buscas eram recheadas das suas palavras-chaves, quando distrações. Mesmo que um clique fizesse saltar uma nova janela, alguma substância nervosa dentro dela a fazia voltar e digitar o nome, já tão banal, e stalkear. Digitava e o rostinho quadrado surgia. Era tempo de um novo clique e já ia para a tela de representações dele. Uma tela cheia dela. Ele não gostava de expor muito. Tinha seus porquês. E isso a agoniava.

- Amor, o que você está fazendo?
- Filme.
- Hum.

Ele gostava de dizer hum.

- Você me ama?
- Claro. Como nunca antes pensei amar. E você?
- Também. Muito.

Ela não entendia porque a janelinha avisava que a mensagem havia sido visualizada a tal hora e logo em seguida não surgia a mensagem de que ele estivesse digitando. Por quê? O que ele estaria fazendo? Flor havia comprometido-se a confiar.

- Amor, posso te perguntar uma coisa?
- Sim.
- Você me acha egoísta como falou no outro dia?
- Não, amor. Achei, por uma atitude sua, mas uma atitude não faz da pessoa uma pessoa egoísta. Você não é! Sei que se preocupa comigo.
- Que bom que percebe.

Flor estava cansando de não ter a voz dele ali, de só ver serenata pela webcam, mesmo morando em bairros vizinhos. Cansada de só ver eu te amo, escrito em diferentes tipografias, mandado em links que abriam imagens belas. Queria arder com ele. Queria um amor dito em sussurro. Queria um beijo que pudesse ventar lembranças. Pra bem longe. Tão longe quanto, nem sequer o mouse dela pudesse alcançar. Terminou de ver o filme. A mocinha perdoou o erro do mocinho. A trama acabou ai. A dela continuava no dia seguinte. Foi dormir e tentou sonhar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

[Amor em tempo de redes sociais] Capítulo 6 – Mais uma vez

Pintura: Ewelina Ladzinska

E um perdão tinha feita a vida eterna novamente. Eram momentos tão ternos, que quase acreditaram na premissa platônica da completude. Flor lembrava do começo sem pretensões, quando seu coração era casa assombrada, fechada, de interior escuro. Mas ele veio, e limpou as teias de aranha, as dores tacanhas, os brilhos mal luzidos. E fez cantar. Arranjou-se uma rotina feliz. Era felicidade que inundava linhas de tempo alheias, em fotos, palavras, argumentos. Perguntava-se, como em tão pouco tempo, tudo era tão intenso, exposto.  

Perdoara, antes mesmo que o coração pedisse que ela passasse, ali, às vistas de todas e todos, de um relacionamento sério para solteira. Quis evitar que curtissem sua dor. Reflexionou e ninguém soube, apenas os amigos e as amigas reais. Sem representações. Ou com elas. Sentia ainda a traição, sempre reiterada, dia ou outro, mas a importância naquilo era nenhuma. Estava feliz. E era tão feliz que podia continuar ali, sem mesmo desejar tristeza.

O trabalho a sufocava. Ele também. Nunca imaginou que aquele rapaz solto pudesse engolir rotinas, adaptar-se a ela, sentir-se metade sem a sua atenção. Mas estava inseguro, pedia, pedia, pedia. Por mensagens, ligações, voz abalada. E ele tinha o ciúme de um leão. Flor sempre acreditou que quem não deve não teme. Se ele teme, então é porque devia, refletiu. E devia, mais ainda. Estava certa.

Depois do amor - como sempre, ele a fazia plena – sentiu uma tristeza percorrer-lhe. Pegou de súbito o celular do rapaz, enquanto ele cantarolava no banho. Sentia aquela invasão, como se o estuprasse. Contudo, sentiu mais ainda, que era preciso. Violentou-se também por fazê-lo, pois prezava, imensamente, pela liberdade. Sabia que as imagens daquela maquininha que alcançava com leves toques só tinham acesso por senha. Mas foi. E fez de um jeito, que a segurança foi burlada, sua vida abalada, seu mundo ali se achatou.

Perdeu ar e perdeu terra. Embora em cama macia, flutuou. Raivosa, terna, racional. Pensou, que escroto. Sentiu vontade de esfaqueá-lo, cuspi-lo, quebrar aquele mesmo celular pelo qual ele falara com ela. Mas prostrou-se ali, e viu, mais uma vez, um rosto sem graça, em baixa resolução. Viu mais do que deveria para poupar seu sentimento. Gelada, sem vida, desacreditou no amor. No seu, no dele, no amor. Mais uma vez? Por quê? Foram três minutos que tiraram sua cor e trouxeram pensamentos simples. Era como se já estivesse preparada. Se já soubesse. Lembrou que sentira mais cedo, como da outra vez.

Ele cantava no banheiro. Ela gritou.

- Quem é Jana?
- Jana? Trabalha comigo. Porque?
- Deixa de mentir. Eu tenho muito nojo de você. Muito.

Ele espantou-se com a frieza com que ela falou aquilo.

- O que foi? Você viu alguma mensagem?
- Não dá mais. Não dá. Eu vi as fotos. E a legenda.
- Foi só uma vez.
- E ter sido uma vez torna as coisas melhores? Acabou. Não me procure mais. Nunca. Se veste. Vamos embora.

Ele calou-se e nem sequer tentou retrucar. Reparou que ela estava calma, sem sal nos olhos. Estranhou. Saíram dali. Conversaram na praça, como de costume. Ele disse que não a merecia. Ela concordou. Flor virou a esquina. Deveria ter sido um adeus. Deveria. Ele chorou, como quando o pai morreu. Os dois se encheram de porquês. Era para ter sido o fim. Era para ter sido.

domingo, 24 de junho de 2012

[Amor em tempo de redes sociais] Capítulo 5 – A traição



Imagem: Stephen Wright
Houve um tempo em que a felicidade era tão repetida, que precisava de tristeza para estar alegre. Flor se sentiu repleta demais, com aquela fofura toda. Estavam casal. E aquilo era tão brega quanto as frases que diziam um ao outro. Ela perdera, até mesmo, o mistério de esconder-lhe o necessário. No fundo, sentia que o amor apitava e dizia que era dúvida, sempre. Diálogos e dias repetidos, profundezas superficiais. Tal qual em paraíso monótono, ela se escondia naquela barba mal feita, em longos respiros. Nem sequer tinham tempos ou saudades.

E como que atendendo ao pedido, que seu inconsciente talvez fizesse, o travesso destino deu-lhe dor. Em dia-rotina, plena terça-feira, foi-lhe o coração acerta-lhe a mente com presságios. A música que falava de lealdade açoitava-lhe os ouvidos. Uma tristeza de futura causa a assolou.

Golpe de voadora, um sms falou o que o peito já sentira mais cedo, mas o sentimento inacreditava. Outra mulher, que não ela, tinha sido dele. Sim, e a avisara por mensagem de texto, um jeito frio e macabro de fazer o seu corpo tremer. A conversa entre as duas caminhou. Sem trocas de farpas, pois Flor pediu-lhe dignidade. O conflito surgiu, a verdade apertou seu semblante.

Verdes colheram verdades. A confissão veio em entrelinhas. Aquele rapaz, com quem se fazia inteira, agora arrancara-lhe um pedaço. Um dia, e a noite foi longa. Por um instante, pensou que sentimentos ruins habitavam a barriga, e, não o peito. Teve aquela garra que aperta o estômago, esmagando qualquer sentir, afligindo-a. Lembrou de coisas, decidiu-se. Resolveu dar-lhe uma chance, por motivos que nunca imaginou ter.

- A vergonha é sua, mas eu te amo.
- O que isso quer dizer?
- Que podemos tentar.
- Mas você quer mesmo?
- Sim, você não quer?

Silêncio na linha. Ela enraiveceu-se.

- Hein? Responde.
- Estou confuso...
- Você? Você está confuso? Ah! Bom, acho que o melhor é deixarmos por aqui.

O silêncio seguiu o desligar. Ali, ela naturalizou a ideia de estar solteira, de sentir-se livre para amar quem quisesse. Quase ficou feliz. Foi quando o telefone tocou, novamente. Ele soltou:

- Meu amor é seu, mas ainda não é o que pretendo sentir.
- Hum...
- Mas eu te amo, amo como nunca antes...
- Eu só queria entender o porquê. Queria sexo? Queria uma coisinha diferente? O que era?
- Com ela, eu não poderia te explicar, você não entenderia.
- Só quero uma explicação, nem que ela não explique...
- Não foi como com você. Eu a humilhei...

Os detalhes a abalaram. As coisas ficavam, cada vez, piores. Ele a assustou. Como poderia aquilo? E como ela, ainda, sentia uma vontade enorme de perdão?

- Me perdoe, meu amor. Não consigo viver sem você.

A voz dele estava diferente. Interna.

- Ok. Mas entenda, quando os erros se repetem, o perdão fica cansado.
- Te juro, que tentarei ser melhor do que sempre fui para você.
- Sua alma é livre e solitária, eu sei. Vejamos no que dá.
- Você me faz muito feliz, mas não mude comigo, por favor. Porque o carinho que tenho por ti é, naturalmente, reflexo do teu amor, do jeito que me olha, que sorri, que me toca. Por favor, continue você.

- Eu acho que um dia você vai sumir da minha vida, como quem foi comprar cigarro...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

[Amor em tempo de redes sociais] Capítulo 4 – O status



 

Já estavam por aquelas bandas em que o coração só dorme com um beijo-sussurro. Não passava um só dia em que a voz um do outro não virasse alegria, fosse escrita ou vinda dum sorriso face a face, fosse em tom mecânico, nenenzinho. Ela jamais imaginaria que aquele abestado que quase vira morrer na contramão  atrapalhando o trânsito, fosse lhe esquentar o sangue.

E por mais que não se vissem tanto e tanto assim, conversar por aquela janelinha, matava uma saudade enjoada que chutava o cotidiano de casais felizes. Casal. Afinal, eram quase isso. Ela sentia, mas pensava mais e sempre. Ele, era pra ela continuamente incógnita. Lúcido, patético, lindo, sexualmente irresistível, com aquele jeito homem-menino e a criatividade toda. Em tudo, tudinho. Ele chamava seu nome seguidamente e o sinal a aborrecia, vez ou outra, mas na grande parte do tempo, ansiava por tê-lo. Mãos, beijo, pensamento.

Ficava naquela de expressar-se imagética, discursiva, 2.0. E lá se ia. Postava fotinhas bregas com frases mais bregas ainda. Tendo em vista, que brega é amar pouco, escrevia, e se inscrevia nos caracteres compartilhados.  Havia chegado naquele ponto em que não mais era um ficazinho conhecido de muros sombrios. Era sentimento que se atirava dos beijos. Os meses já passavam dos dedos de uma mão. Foi quando ele segurou-se, como nunca antes, nas mãos dela e disse quase não disse, numa volta dessas de dias normais.

- Flor, fica comigo?
- Eu já tô contigo, cara. Olhaqui, nós dois juntinhos.

E sorriu. Ele frizou-se.

- Eu tô falando sério. A gente pode mudar o status de relacionamento e tal.
- Hum?
- Tipo pra relacionamento aberto ou sei lá...
- Relacionamento aberto?
- Não quer? Podemos colocar relacionamento sério mesmo. Aquele Facebook tem tão poucas opções.
- Então tu quer colocar relacionamento sério porque tem poucas opções? Não é um bom começo...
- Não! Eu não disse... quer dizer... eu não quis dizer isso. Flor...
- Diga...
- Seria tipo um namoro...
- Tipo um namoro?
- É, daí só ia faltar eu conhecer tua mãe e teu pai e...
- Opa, xuxu. Vamos com calma. Pera. Xeu ver se eu entendi: você quer mudar o status do relacionamento, namorar comigo e conhecer meus pais?
- Não necessariamente nessa ordem...
- Hum? Calma, calma... Não sei, eu mal te conheço.
- Mal me conhece? Tá, esquece.
- Sim, mal te conheço, mas só sei que tem um bichinho que fica mordendo uma veia minha bem aqui, só pode.
- Um bichinho?
- É. Às vezes faz cócegas, outras aperta e tal.

E ele tentou disfarçar um sorriso que seria belo, não fosse a luz amarelada e morna do lugar. Postes. Um silêncio foi endeusado. Foram segundos de muitos frames emperrados. Ele deu uma voadora no silêncio e despontou.

- Amor, se você não quer...
- Não te conheci tão vestido assim de insegurança.
- Inseguro, eu? Só te fiz uma proposta. Foi você quem acabou de dizer que tá apaixonada aê, cheia de bichinhos do amor.
- Ai, ai...
- O que foi?
- Nada.
- Diz, diz...

E ele realmente achou que um sorriso gigantesco esconderia a aflição que sentia.

- Deixa, gatinho.
- Não. Diz, diz...
- Amor, chegamos. Vou indo, até amanhã. Beijo.

Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, aquela boca que ele sentia/imaginava de hora em hora fechou a sua. Foi pra casa, pensando, pensando. Resolveu abrir a página-vício de cada dia. Uma notificação se distinguia das outras e figurava. *Flor de Sah solicitou relacionamento sério com você*. Antes que se arrependesse, tacou a setinha nervosa naquele botão *aceitar*. Brilhou. Levou seis minutos inteiros para dormir, sorrindo.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

[Amor em tempo de redes sociais] Capítulo 3 - O encontro




Eram oito e quinze da noite e o ônibus parava mais uma vez frente à máquina piscante de três cores. Como amava o vermelho. Todavia, naquele instante, era frustrante vê-lo dar ordem aos carros. Motoristas suando a deixavam nervosa naquele aperto de olhar a rua impaciente. A maquiagem dali a pouco escorreria-lhe face afora e nada poderia ser feito. Lembrou que faltava apenas um quarteirão até que o ônibus alcançasse a parada em que ela iria descer. Animou-se. Lembrou junto, da cara de tacho charmosa e vibrante do pierrot que a esperava. Desceu.

- Desculpa o atraso. Sabe como é trânsito nessa cidade. Você chegou agora?
- Não se preocupe, minha flor. Na verdade, eu tô aqui desde as quatro da tarde. Vim mais cedo pra assistir ao filme do Fellini, ali no Cineclube.
- Humm... E qual era?
- 8 ½. Já viu?
- Não, esse só baixei. Não assisti ainda. Gosto de E La Nave Va e d’Os Palhaços.
- Dormi no E La Nave Va, vou nem mentir. Mas chorei n’Os Palhaços. Muito tocante.
- Ave! Gosto dos dois. Mas mais do que do Fellini, gosto do Almodóvar.
- Sim. As cores de Almodovar me atraem, vermelho... Kika, Volver, Tudo sobre minha mãe, e agora, esse último...
- A pele que habito. Intrigante.
- Demais. Crise existencial total!
- Crise existencial? Tu acha?
- Minha subjetividade lascou-se com ele. Todo aquele ódio, os erros, a loucura... Mexem com a gente.
- Eu sei. Mas típico do Môdovazim.
- Môdovazim?
- É. Gosto muito dele. Também gosto do vermelho. Aí, pronto.
- E a sua calcinha é vermelha?
- Hã?
- A sua calcinha é vermelha?
- Olha garoto, num é porque eu topei sair com você que você vai me levar para a cama não, viu? E que vulgar, falar essas coisas. Oxi!
- Hã? Eu só perguntei se sua calcinha é vermelha.
- Só? Acha pouco?
- Xiiiii... Você é uma libertária muito conservadora, minha filha. Eu só perguntei se sua calcinha era vermelha. Não vejo nada demais nisso. A não ser que eu tenha acertado, o que, por conseguinte, lhe deixou assim tão ou mais vermelha que a dita calcinha da questão.

E uma raiva frenética estuprou-lhe os poros e quis sair pela boca, num grito escrachado. Mas não. Ela conteve-se, porque ele realmente tinha razão. Na cor, no constrangimento. Era um aborrecimento atraente, com aqueles olhos apertados, fitando-a maliciosos. Contendo-se, sentou no banco próximo de onde passavam.

- Tudo bem, tudo bem. Eu não vou fazer desse encontro um momento de auto-flagelo. Não vou brigar com você.
- Vixi, como tu estica a baladeira, mulher. A gente tá só conversando.

Aquilo só podia ser brincadeira, pensou. Enfrentara quarenta minutos num trânsito lesmático, já tendo aceitado o pedido absurdo de vir ver esse rapaz tresloucado que quase vira morrer atropelado na semana anterior, pra ele vir falar aquilo? Respirou fundo.

- Você sabe o que está dizendo, gato. E faz com algum propósito. Enfim, o que a gente vai fazer? Só ficar passeando por aqui mesmo? Comer alguma coisa? Ver um filme, teatro, exposição?
- O que você quer?
- Eu tô com fome.
- Vamos.

Lancharam e a conversa amenizou-se, pelo menos enquanto a batata frita extinguia-se do saquinho. Falaram de cinema, festas, movimentos artísticos e tudo mais que os linkava. Vez ou outra, ela tirava o celular da bolsa, com o intuito de verificar novas atualizações no feed de notícias ou ver se não tinha novas mensagens. Os olhos dele a criminalizavam por isso.

- Será que tu sobreviveria sem ele?
- Sem ele quem?
- Sem o Facebook.
- Ah, claro! É questão de hábito. Se passo algum tempo sem, passo bem. Mas quando volto, tenho necessidade.
- Humm... Novas drogas! E de quais tu gosta?
- Quais o quê?
- Quais drogas, gatinha?
- Não curto.
- Humm... Achei que curtia. Não essas, né? Só curte e vibra com as coisas, virtualmente?
- Claro que não. Até acho isso de só curtir positivo demais. Deveriamos descurtir e tal.
- É verdade. Só o comentário serve pra isso. Paia. Eu acho que essa rede paz e amor, azulzinha e tal, com conformismos virtuais bem encaixotadinhos num design minimalista tá assumindo um papel muito forte na sua vida.
- Ah, você acha?
- Sim. Vi suas últimas atualizações, e o intervalo entre uma e outra é bem curto. Você quase não tem tempo pra viver o que compartilha.
- Muito bom ter especialistas que avaliam meu comportamento virtual, com tanta perspicácia. Assim não preciso me preocupar.
- Às ordens! E outra coisa...

A outra metade da frase misturou-se entre as línguas ainda com gosto de coca-cola geladíssima. Ele a irritava de tal forma que Flor não se conteve em avançar naquele beijo, de pura necessidade. Sôfregos, recompuseram-se nos seus lugares, após três minutos-eternidade, e no tempo-depois que se colocou após aquela delícia de beijo.

- Tá, adorei seu protagonismo feminino.
- É? E se tu me beijasse em vez de ficar de lenga lenga ai, seria protagonismo masculino?
- Tudo bem, me pegou. Tava com medo de que você não quisesse.

Ela o olhou profundo e lento, levantou-se, segurou sua mão.

- Vamos?
- Você quer ir pra onde agora?

Ela apenas sorriu. Naquele minuto, a frase do livro de Vargas Llosa que lera na semana anterior, lhe veio a mente: “o segredo da felicidade, ou pelo menos da tranquilidade, é saber separar o sexo do amor. E se possível, eliminar o amor romântico da sua vida, que é o que faz sofrer”. E porque pensar naquilo agora? Quem estava falando de amor? O intuito era a outra coisa. Eles foram.

E nem sempre...
A verdade é apenas um grito estúpido da imaginação. Que pode se desfazer feliz num sopro de vento. Ela ali, embaixo, pensou. Ele estava dentro dela, físico, formal, sentimento. Por um instante, a moça, esmagada prazerosamente pelo peso do grande rapaz, desejou sussurrar em seu ouvido as palavras já tão ditas pelas camas do mundo: eu te amo. E como vindo de um fundo bem lá embaixo de sua alma, voltou sincero como veio, e ela continuou a aproveitar o momento. Não chegava aquilo a ser um momento, posto que a duração era tamanha e inesquecível, pungente. Aproveitou.

O telefone tocou. Ela foi atender. Ele pediu que não.

- Alô...

- Preciso ir.

E foi.

- Quando vamos nos ver de novo?
- Agora tenho seu número.

Vestiram-se e ele a deixou na esquina que ela pediu. Despediram-se sem beijo. Ela teve medo.

sábado, 17 de dezembro de 2011

[Amor em tempo de redes sociais] Capítulo 2 - O telefonema





Vibrou.

- Alô, quem é?
- Se eu disser algumas palavras você me reconhece?

Silêncio. Ela sabia quem estava ali, do outro lado da linha, mas...

- É algum tipo de trote? Não conheço esse número.
- Flor, flor... “Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”.
- Olha aqui...
- Minha linda!

E ela não pôde conter-se. Aquela voz que recitava a fazia sorrir e temer. Lembrou de cabelos emaranhados e do quase atropelamento.

- Já sei quem é. Agora, cara, eu te dei meu telefone, mas não era pra você ficar me incomodando com besteira. Oxi!
- “A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca”.

Mais uma vez, silêncio. Como era possível, ele contorná-la daquela forma, pensou. Citar Drummond assim, na cara dura. Acionável.

- Oi...

Respirou profundo...

- Certo. O que você deseja?
- Tenho que te confessar que teu microblog me toca mais do que teu próprio olhar. E teu olhar me toca, me toca muito. Preciso dele.
- Obrigada. Mas como é possível tocar, nessa virtualidade toda?
- As palavras são sempre palavras, bebê. O meio é só detalhe. Tuas hashtags são pra mim, asas belas e espalhadas. Sei de você, agora. Sei de você.
- Nada nada. Os 140 caracteres que me limitam, nada dizem sobre mim. Mas tem uma coisa. Não sei seu nome.
- Cravo, pra te acolher, minha flor. Meu nome é Cravo.
- Cravo tu tem na cara, abestado. Quero saber o teu nome.
- Nossa, nossa. Assim, você me mata. Bruta como uma tigresa que quer dar o bote. Você quer dar o bote?
- Rapaz, assim você me faz perder a paciência. Liga do nada e ainda me ofende.
- Não se perde o que não se tem, minha linda. Te dei pedaços de fala doce e você tão bem ignora. Se aborrece por uma única palavra, que nada mais é do que a verdade do teu momento/espírito.
- Olha, acho melhor eu desligar. E também acho que você não deve ligar mais.
- Se você quisesse que eu desligasse, já teria feito. Você não quer, eu vejo aqui. Seus olhos estão brilhando na minha lembrança. Ai de mim, que te tenho em vento, só em memória.
- Caralho, mas você é dramático e brega, viu?
- Sou e não nego. Não mudo quando puder, posto que brega é amar pouco e eu amo.
- Ama?
- Sim. Você.
- Risadas múltiplas pra ti. Como me ama? Tá doido? Me viu uma vez só e já fala uma coisa dessas?
- E o amor à primeira vista, tá pôdi? Te amei ali naquela parada de ônibus, e já devia te amar antes, só não sabia.
- Oh My God! É, meu filho, é. Deixe de conversa. Bicho queixudo de uma porra. Ave Maria!
- Linda e linda. “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.
- Lá vem você com Drummond de novo. Tá certo. Mas me diz o teu nome, rapaz.
- Se não aceita Cravo, pode me chamar de Pedro. Inclusive, eu tinha te dito meu nome e meu CPF, da última vez, não lembra?
- Humm, é verdade. Minha memória me trai de vez em quando. Mas o que você quer?
- Você.
- Eu não sou algo. Logo não posso ser de ninguém além de mim mesma. Sinto.
- Então quero te ver.
- Não sei. Final de semestre tá phoda. Muitos corres, muitos, muitos.
- Deixe disso, minha flor. Drummond já dizia que “perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes”.
- Tô precisando sair mesmo. Mas não sei...

Aquele barulho chiado, que só as operadoras de telefonia móvel podem oferecer aos seus usuários em momentos decisivos, rompeu.

- Aprendi a esperar com as paredes. Se você não quer, não posso fazer nada. Mas se quiser, posso fazer muitas coisas.
- Não sei, não sei.
- Agora se você não sabe, não sou eu quem vai saber por você. Você tem razão. Vou parar de lhe incomodar, embora meu coração se aperte. Adeus.
- Espera!
- Oi?
- Você parece... Sei lá... meio doido. Mas gosto de conversar contigo. Podemos ser amigos e marcar alguma coisa.
- Amigos sim, claro. Não há amor sem amizade. Então me encontra no sábado, às 20h, no Centro Cultural Lagarto do Oceano.
- Tá. Seu persuasivo!
- A gente só faz o que quer, minha Linda flor. Desde já, meus pensamentos são teus. Até.
- Ok. Tchau.
- Cheiro no cangote.

Ela desligou. Naquela noite, sonhou com cabelo emaranhado em suas mãos. Olhos vibrantes lhe davam carinho depois do amor.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

[Amor em tempo de redes sociais] O início


-Ei, você deixou cair isso!

Ela se vira majestosamente...

- O quê?
- Um pedaço de beleza aqui, ó...

Ela sorri pequeno! Tinha medo dessas cantadas bregas, mas fazer o quê, se ao menos eram engraçadinhas.

- Me desculpe! Foi mal, foi mal... Esse pedaço de beleza não pode ser seu. De jeito nenhum! É só olhar pra ti, lindeza, que a gente vê que a sua beleza tá mais que completa.

E ela não pôde conter. E um brilho pintoso rasgou a cena. Era um super sorriso que se abria na boca fina.

- Cantada barata viu!
- Barata, mas lhe arrancou felicidade e me deu a belezura do teu sorriso. Vai ser linda assim lá no papel de parede do meu Mac, juntinho de mim, na prainha!

E ele era desconcertante.

- Rapaz, eu tenho que ir. Você pára as moças assim, aleatoriamente, pra falar de beleza e sorrisos, é?
- Que nada moça bonita! Foi tu que lascou esse jeito de andar no meio das minhas fuças. Ai, dei de me encantar. Sabe...

Silêncio. Ela que já ia virando-se para partir, sentiu um algo que lhe puxou a ficar. Perguntou.

- O quê?
- Gosto de números. Quando eu era pequeno, decorava número de tudo. Nem sei se ainda consigo. Você podia me ajudar...
- Hum, até já sei. Mas desculpa, não costumo dar meu número pra qualquer pessoa.
- E eu sou qualquer pessoa? Avistei tu de longe, e quis até te ajudar, catando do chão o pedaço de beleza, que por sinal, nem era seu...

Mais um sorriso arrancado.

- Podia ao menos conversar comigo. Posso te acompanhar?
- Acho melhor não. Não te conheço...
- Muito prazer, me chamo Pedro Andrade Feitosa Leite. Meu CPF é 123 477 777...
- Tá bom, vai...
- Então, como ia dizendo...
- Mas vou avisando logo, a rua é pública e você pode ir andando ai, só não tente nada viu?
- “A noite ascendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão”.
- Oi?
- Nada não!
- Foi bonito o que você disse.
- Mas não foi eu quem disse. Foi o Quintana. Mário.
- Hummm
- Estamos conversando há três minutos, eu já posso saber o seu nome.
- Cuidado!

E ela puxou ele duma vez.

- Tu é abestado é? Atravessa a rua sem prestar atenção!
- Mas eu tava com você. Você salvou minha vida. Sou-lhe grato. Agora eu preciso te agradecer, e, pra isso, preciso saber o seu nome.

Ela, calada, sentiu um vento frio, da noite que já sorria por entre nuvens amareladas.

- “Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem...”

Ele continuou, o que a deixou surpresa...

-“Seu nome não está nos livros”.
- “É feia, mas é realmente uma flor...”
- Ah, com isso eu não posso concordar! Mas como assim, seu nome é Flor? Sua mãe era hippie?
- Era. Já vi que você gosta do Drummond. É, você não é de todo mau.
- Você pode descobrir mais de mim. Te dou meu facebook.
- Quem disse que eu quero?
- Pois me dá seu telefone, que eu não te dou meu facebook.
- Não vou dar o número do meu telefone para um louco que acabei de conhecer, e que é tão lesado, que quase ia sendo atropelado!
- Por quê?
- Eu preciso responder?
- Claro!
- Porque celular é uma coisa muito pessoal. Você pode falar comigo instantaneamente, me encontrar onde eu estiver, é muito impessoal para se dar para estranhos...
- Tá, então vamos por partes. Você me disse seu nome. Não devem ter muitas Flores no face. Vou te achar. Você usa muito ele?
- Uso. Tô meio viciada...
- Você é bloqueada?
- Como assim? Ah... Não! Isso é besteira.
- Pois tá parecendo...
- Hã?!

E aqueles olhos pretos dela se encheram de uma fúria vermelha e rosa.

- Qual teu sobrenome?
- de Sá.
- Humm. Agora é fácil. Flor de Sá! Tudo bem, tu não me deu teu telefone, mas eu posso descobrir o que você faz, onde você trabalha, onde estudou, quem são seus amigos, que lugares você freqüenta... Até seu endereço, se você for chegada num chek-in! Mesmo assim, tu não vai me dar teu número?
- Claro que não. Celular é demais!
- Tá certo. Vou desvendar seus gostos, ver sua idade, ver que cantores você escuta. Vou saber da sua rotina! Vou interagir contigo. Mas queria você analógica.
- Ave! Analógica. Mas tu perturba viu?!
- Ainda mais linda enfezada! Eita, que a raiva é mais divina que a calmaria.
- Cara, desiste! Tô indo aqui pegar meu ônibus...

E ela saiu andando. As costas queimavam, e a vontade de virar e olhar o porquê de ele ter parado de segui-la foi maior. Ele gritou:

- Eu só preciso de oito números, que vão me garantir a felicidade o resto do dia. Plisi, dont go! Faça alguém feliz. Me faça feliz.
- Ai como é brega...
- O que seria do mundo sem os excessos de breguice?

E dessa vez, foi ele quem sorriu. Amplo, calmo, encanto. Ela estremeceu. No fundo de sua alma, alguém sussurrou: “lerda!”. Ela, então, tirou da bolsa, papel e caneta. E quando olhou pra frente, viu felicidade materializada naquele olhar de menino abobalhado.

- Taqui ó. Agora, por favor, sem excessos.
- Fica parada!
- Pra quê? Vai me assaltar?
- Não, só vou te roubar coisas mais pra frente. Agora só quero guardar na mente a tua beleza completa. Sua linda!

E saiu correndo pela rua, balançado por sorrisos múltiplos. Ela ficou ali, besta e até perdeu o ônibus.