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sábado, 5 de maio de 2012

O vidro de perfume – Mito




As pétalas agarravam compulsivamente seu ao redor. Seu corpo era frio e torneado. Belíssimo. Por gerações guardou odores intocáveis, sublimes. Recomposto, pertencera a mulheres comuns, mundanas, serenas. Fez-se vidro num fogo ardente, moldaram-no cheio de graça. Foi que assim que nasceu, recobriram seu corpo em choque, finíssimo, chiquérrimo, com pinceladas tocantes, emocionais. Reproduziram nele a arte de um homem que amava. E fora vermelho, até que perceberam que estava forte. E fora azul, até que perceberam que estava calmo. E fora branco, até que perceberam que estava nada. E fora de várias cores, e flores, e poesias. E não mais perceberam, seduziram-se. E assim ficou.

Morou naquele bordel encantado. Viu camas tremerem, mil homens passarem, mas era ele, somente ele que escutava pensamentos, que via olhos brilharem, escorrerem, que soprava felicidade ou conforto. Ficava enfeite, bibelô, contudo, era mais, bem mais. Era o orgulho lindeza de cada mão por que passou. Viu violências, amores, latência, viu trovões e chuviscar. Respeitou cada decote daquele, pela inteireza de caráter que viu no múltiplo querer /não querer estar ali. Respeitou cada choro depois das visitas. Respeitou toda luz que se apagou. Respeitou a verdade que só ele via e cresceu.

Se pudesse, imitaria a gente, derramando-se. Porém já suspirava  quando lhe borrifavam. E naquela hora, em que o tempo se fazia menino/momento, e dava tanta graça aos olhos fechados que recebiam o aroma, ele era felicidade. Vidro de perfume. Em meia idade, foi parar numa casa de família, sentia-se triste pela melancolia alheia, mais empertigada que a que vira por anos, sobre aquelas penteadeiras femininas. Quis quebrar-se naquela monotonia. Até que um gato, bem-vindo, peludo, fez sua vontade.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Eduardo fala das origens desse mundo


Incrível como esse grande autor, que até inspirou um dos Encontros (Erecom Theresina 2011) da Enecos, coloca em xeque algumas certezas desapercebidas pela maioria de nós. Por exemplo, sempre que há alguma referência às personagens da História, o artigo usado é o masculino, e a certeza é sempre a de que os feitos foram realizados pelos homens. Eduardo Galeano, em Espejos - Una historia casi Universal, aponta para a origem de algumas construções históricas das opressões vividas atualmente. O texto abaixo é só um dos exemplos trazidos na obra. Fica a dica de leitura!

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Fundação da beleza

Por Eduardo Galeano
Em Espejos – Una historia casi universal

Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Estas figuras, bisões, alces, ossos, cavalos, águias, mulheres, homens, não tem idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.

Como eles puderam, nossos remotos avós, pintar de tão delicada maneira? Como eles puderam, esses brutos que a mão limpa pelejava contra os bichos, criar figuras tão cheias de graça? Como eles puderam desenhar essas linhas voadoras que escapam da pedra e se vão pelo ar? Como eles puderam...?

Ou eram elas?



Fundación de la belleza

Por Eduardo Galeano
Em Espejos – Una historia casi universal

Están allí, pintadas en las paredes y en los techos de las cavernas.

Estas figuras, bisontes, alces, osos, caballos, águilas, mujeres, hombres, no tienen edad. Han nacido hace miles y miles de años, pero nacen de nuevo cada vez que alguien las mira.

¿Cómo pudieron ellos, nuestros remotos abuelos, pintar de tan delicada manera? ¿Cómo pudieron ellos, esos brutos que a mano limpia peleaban contra las bestias, crear figuras tan llenas de gracia? ¿Cómo pudieron ellos dibujar esas líneas volanderas que escapan de la roca y se van al aire? ¿Cómo pudieron ellos...?

¿O eran ellas?