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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Déjavu


E é muito bizarro porque é de uma vez. Você vive por segundos o que a sua mente reconhece como já vivido. E pensa que já foi vivido mesmo. E pensa que não foi vivido nada. A situação é tonta. Sua cabeça roda, e você analisa a repetição. Mas a memória não te dá momento/lugar/tempo em que se foi vivido aquilo. É mais sensação que lembrança. É mais lembrança que experiência. É como marca que nunca foi deixada. É tão latente e confunde tanto por não explicar, que a vida para ali e as respostas não vêm. É como se em algum lugar da infância você tivesse sonhado com aquilo e agora vivencia. E é situação-besteira, banal, mas impressiona posto que não se entende. É e não é. É como que aquela linha, que você não sabia que existia, tivesse quebrado em pedaços de tempo, rapidamente reconstituídos por um olhar de atenção. Vez ou outra, sinto dessas coisas.

Ouvi dizer que estão presentes em várias vidas. Rasgando monotonias. São cérebros tacando facas no tédio pra não deixar a loucura chegar. Ou seria uma lambida na esquizofrenia? Testes esquecidos e não legitimados de previsões de futuros baratos que a gente não releva. É essa mania de não darmos a estima que o nada merece. Pra não cair nessas coisas de amar importâncias, vou ali ler o livro das ignorâncias, de São Manoel de Barros.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Porque sempre amou o negro


Tinha uma caneta e não conseguia mais escrever. Seus dedos, já tão treinados, gostavam de açoitar aquela estrutura tão organicamente hierarquizada. Sopinha de letras com organização.

E seu coração tinha mania de só querer escrever quando sentia vontade. Aliás, ele dava de gritar, fortemente, com ar emprestado do vizinho pulmão. Já que era um coração de mulher, fazia-se flor.

Despetalava-se nas letras, ali postas, redondamente, retamente, certamente... Flores estavam por toda a parte. E não sabia sobre o que escrever. A primavera não tinha acabado e já lhe era crônico falar tão delas. Podia falar da nudez do eu, mas cansar-se iria, e lhe era tão fatigante como amar.

Viu que escrever gastava o coração, assim como amar. Disseram que lhe faltavam ternura e confiança. E era verdade. A verdade era forte, e tão pronto não parecesse, ia lhe comendo, inconscientemente, até lhe faze escrever asneiras numa tela de fundo preto. Anormalidade.

“Essa menina é toda ao contrário”, seu pai lhe dizia. Não apenas por deixar o ventilador ligado no quarto vazio, enquanto dormira na noite quente com ele desligado. Mas sobretudo pelas roupas coloridas, pelo jeito temperado, pelas falas desvairadas e por não querer ir à missa no domingo à noite. Viu que ele entendia mesmo das coisas.

Gostava tão plenamente de ser assim, avessa, quanto gostava de escrever besteiras troçadas na página negra. Lembrou de quando era criança e queria ser negra. Achava tão linda a cor morena. Parecia-lhe até, que quando tocava o braço da amiguinha, ele era mais macio, mais carinho. As vozes dos cantores eram mais lindas, e o cheiro da mãe era mais belo. Não tinha o balanço de samba que a amiga tinha. Nem os cabelos tão lindos e negros que completavam a pele escura. Era pois, amarela, sem graça, sem samba, sem cheiro, sem voz ou maciez.

Um dia ouviu dizer que os negros envelhecem mais devagar. Lembrou da avó, e de como ainda era jovem e bonita. Depois foi sabendo das coisas. Navios, porões, correntes. Conheceu orixás, terreiros, origens. Teve sorte. Invejou tanta força naquele sangue que também corria em suas veias. Ficou feliz por saber que sempre foi negra. Deviam ensinar essas coisas direito na escola. Ficam fazendo frustração em criança. Maldade.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Dizem que as flores nascem na primavera...


Dizem que as flores nascem na primavera. Como por aqui, esse negócio de estação do ano é besteira, me conformo em usar do título e da forma. Seja nos textos, nas roupas, ou mesmo, nos amores vividos ou não.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Porquês entre Beauvoir e Balzac


Ele jogava sal no seu amor. E ela, boba, chorava letras molhadas. Via bolhas coloridas e não sentia vontade de sorrir. Desenhava uma mandala e abominava seu próprio coração. Cruelmente sentia desfalecer esperanças, que não sabia por que cargas d’água ainda figuravam verdinhas. Já deveriam estar murchas, tristonhas. Aplicar-lhe iria a eutanásia bendita, se coragem tivesse pra tanto.

Um grito mudo e longo brotou-lhe do peito, saiu-lhe da boca cansada, assoprou o nada e estampou agruras em sua mente. Sentiu-se fatalista e breve. Sentia, sentia, esse era seu grande problema. Poderia romper-se sem dores ou prolongamentos de ilusões hiperbolizadas. Mas não. Ficava ali se carcomendo. Entregar-se iria ao pensar. Racionalizaria sentimentos, perderia bondades, negaria o necessário para a sua própria felicidade mal-grada.

“É tão fatigante detestar-se alguém que se ama!”, lembrou da cortante frase de Beauvoir. Mas não se considerava ainda uma mulher desiludida como no livro que lera há tempos. Ainda. Podia até ser a balzac-anamente mulher abandonada. Mas não se pode ser deixada por alguém que não se tem. Frustrava-se.

Como queria ouvir aquele “sois para mim a única mulher no mundo”. Mas não. Lembrou que a distância, dali a alguns dias, afastaria esses pensamentos permenorizadores de seu eu estúpido. Tentou se concentrar nas obrigações que a busca do futuro lhe impunha. Foi se questionar sobre os rumos de sua vida. Ai, como existir dá trabalho! Lembrou.

domingo, 14 de agosto de 2011

O vaso vazio de uma flor sem forma


Antes, angustiado era o meu estar. Fazia penúrias de besteiras plenas. Mas por tempos, rumei por campos quentes, verdes, por lindos caminhos de gente tão bela no dentro e no fora. Recarreguei meu estoque de sorrisos. E assim, nem que quisesse poderia recorrer às tristezas banais. Mas a solidão, sempre regada de companhias intensas e lembrançosas, sempre volta a piscar na boca, vazia.

Meus pés latejariam pelos caminhos que andei, se neles não calçasse sandálias de vento, mais leves que as lembranças que ainda restam nas estamparias de minhas camisas. Meu tempo é um vai e volta, uma confusão. Não queria dar mais trabalho ao meu pensamento. Mas o coração, que é casto na sua indecência, me chama, me grita, me posta no muro, numa parada qualquer dessa estrada febril.

Queria por vezes ser toda ébria e enfrentar a vida sorrindo, feito o bobo que é mais feliz por que já descobriu que não precisa sofrer. Queria negar essa vontade tão humana de ficar sofrendo por algo que é tão passado, que me volta pruma esperançazinha, meio ridícula, meio indigna.

Minhas unhas não mais crescem de orgulho da mudança. Nem se colorem no pecado do querer. Meu liso é por outros motivos. Meus porquês já não se alteram. É desse vazio que me alimento. Numa hidroponia sem mesura. Nessa mania de me vestir de sentimento em flor e de flor em vaso frio, vou tomando formas que não esperei tomar.

Como pode a forma tomar o vazio? Ou será o vazio que engana a forma? Minhas respostas são cheias de vícios. Minhas perguntas não querem respostas. O lancinar do vestido na perna irrequieta preocupa a boca nervosa que rói a unha. Mordo e engulo meu desejo de mudar. Já não me apetecem os esmaltes nos dedos. Já não me arrancam delírios as flores no cabelo. Já consegui outros jardins que merecem cuidados.

Dedicar-me-ei não mais às orquídeas dos meus vestidos. Aliás, descobri nos canteiros por onde andei, seres livres, cuja fragilidade me assustou à princípio, mas que depois me mostraram a sua forte beleza. Borboletas me ensinaram a cantar. Estou a tomar lições de bater asas.

sábado, 25 de junho de 2011

As certezas são muito chatas...


Flor tinha espirrado com a poeira das passagens que relia. Fechou o livro, cujas ideias pesavam em suas mãos e mente. Todos na casa dormiam. Era, a cachorrinha malina e, Cidreira, o gatinho de olhos indecisos. Tateou na semi-iluminada pequenez da sala colorida e tropeçou num azulejo. Diabéisso, pensou. Isso é que dá, morar numa casinha velha dessas, tão linda, minha e conflituosa, concluiu pra si própria. Alcançou o interruptor de design arcaico e apertou-o. A tomada tinha uma moldura com ondulações e retorcimentos, como quem delira. Estilo eclético, misturada de elementos barrocos, rococós, e sujeira nas escavações. Desistiu de entender aquela origem da luz e caminhou rumo ao lugar que tropeçara.


Baixou as vistas e foi lá examinar a causa de seu dedão estar latejando tanto. O retângulo parecia solto. Podia recolocá-lo no lugar, porém para isso, era necessário arrancá-lo. Tentou puxá-lo, mas a única coisa que conseguiu foi quebrar a unha que demorou três semanas para crescer e impressionar a amiga. Pelo menos já a havia mostrado à amiga. Tacou-se no quarto e só retornou quando na mão direita figurava um palito novinho que usava para limpar restos de esmaltes e empurrar cutículas. Enfiou o pedaço cilíndrico e fino de madeira na brecha entre um azulejo e outro. Após forçar, levantou o azulejo meio azul, meio amarelo, meio imundinho.


Tal foi a surpresa nos olhos daquela menina, quando meio que brilhou dentro daquele buraco que fizera no canto esquerdo de sua sala, uma chave. Estava coberta duma areia porosa que um dia fora cimento, aliança que unira o chão quente ao azulejo frio. Tirou o metalzinho de textura craquelé do lugar, deu-lhe uma limpada, múltiplas assopradas, esfregou na barra do vestido de crepe, até que parecia decente.


Arre égua, como pode isso?, pronunciou baixinho. Sentou no sofá velho, recoberto de mantas e, ficou olhando a chavinha. Era bonita, bonitinha. Comprida, tinha numa das pontas, vários círculos e buraquinhos, que cerceavam algo semelhante a um coração. Quase parecia uma chave de fenda apaixonada. As bolinhas seguiam e se transformava mais acima em uma haste de três curvinhas. Era como se um anãozinho de trinta centímetros tivesse apertado, com suas minúsculas mãozinhas de força estupenda, e deixado as marcas dos seus dedos por ali, pra todo o sempre. Só de um lado, porque do outro, não eram curvas que adornavam a pequena chave.


Esse outro lado era liso, e a maciez do metal era molestada somente por um pequeno relevo amontanhado. Quando se acabava a haste de três curvas e uma montanhinha, logo assimetricamente, uma configuração disforme tinha perfurações também circulares. Três furos menores, com raios que diminuíam em proporção aritmética. O buraco maior parecia uma briga de círculos famintos e devoradores um do outro. Mas logo nessa fenda nascia uma argolinha, cuja irmã menor se encontrava do lado de fora, na beirada da chave. E no topo da bichinha, um cristal arranhadíssimo, encravado tortamente num meio de círculo.


Depois de ver e enxergar aquele bocadinho de detalhes dementes, Flor achou a chave feia. Quase sentiu vontade de sepulcrá-la novamente debaixo daquele azulejo. Mas curiosidade é coceira que só passa com pomada de soluções. E daí a moça se inquietou. Foi regar suas plantinhas, com ganas de quem acha que programas chatos e caridosos enriquecem a alma e amaciam os tormentos. Quem dera. Matutou e nada de ver lógica naquilo tudo.


Estava ali, às quatro e quinze da manhã, com uma chave na mão, um azulejo e vários parafusos fora do lugar. Tinha tantas hipóteses tão absurdas na cabeça, que se cansou. A velhinha, que morava ali antes dela, podia ter sido bela nos seus anos de moça, e daí, teria tido um dote, guardado em um baú, cuja chave era aquela. O amado da velhinha podia ter fugido com o dote, depois de ter arrombado o baú, e a pobre da Dona Toinha - a velhinha -, tinha enterrado a chave ali, junto com seu amor traído. Claro que não!, refletiu. Ave Maria, tu acha!?, claro que não, claro que não...


E se, e se... ah! E se quando a casa estava sendo construída, um dos pedreiros simplesmente colocou a chave ali. A chave poderia ser do diário da filha dele, que o moço acabara de ler e descobrir que a menina perdera a donzelice. De raiva, queimara o diário e jogara a chave debaixo de seu trabalho. Hum, acho que não!, ultimou. E se for uma macumba? E se for de esquecimento? e se for de uma porta?.. Flor achou melhor desistir. Provavelmente nunca saberia sobre a origem da chavinha meio feia, meio bonita.


Se consolou com o fato da chave ser mais bela assim, toda cheia de mistérios. No fundo as coisas são só coisas. O que importa é a história por trás delas. E como Flor não sabia a verdade, podia botar na chave a história que quisesse. Era mais interessante. Tinha uma virgula de frustração, mas quando controlou a coceira da curiosidade, tirou do porta-bijuterias que tinha ganhado do ex-namorado, um cordão e meteu-o pelo buraquinho da chave. Ganhou um novo adorno. Amuletou a chave, fez pingente guardador que não tirou mais do pescoço. Desde então, esqueceu da história e só recorda de vez em quando. Toda vez que alguém pergunta de onde é aquela chave estranha, ou quando seu peito se sente pesado.


O objeto adquiriu significado, ganhou valor. Ficou parte dela agora. Depois venderia num brechó qualquer. Enquanto isso, aquele pingente feio integraria sua monotonia. Descobriu que mondrongos podem ser encantadores e necessários.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Abater, repensar, transferir...


Eu fico pensando porque o senso comum sempre precisa ter razão. Nisso, de dizer transitoriedades constantes, de reafirmar felicidades efêmeras. Você pára num ponto de alegria e ele sequer se estende por duas ou três semanas. Há o algo de um tenso eterno no acabar de momento. Frustrante. O que fazer diante disso? Vou ler Florbela. Vou me pôr Flor na página negra. Vou me transferir em linhas digitadas, digitais. Vou escutar If I fell. Quero abater esse cansaço mental, esse esgotamento psicológico. Vou repensar, antes de novas rearticulações coronárias. Vou beber uns copos de solidão. Ao meu jeito. Plisi bilivi!

sábado, 23 de abril de 2011

Flores não mofam. Ou mofam?


A menina Flor resolveu brincar de mulherzinha e ajeitou a tela do PC de frente pra sua cama de colcha lilás. Postou-se a pintar as unhas e fez florzinhas nelas. Esmiuçou-se em besteiras que há tempos não fazia. Detestava esses adornozinhos que as mulheres retêm nas extremidades do corpo. Arrumou e lixou as unhas assistindo P.S. Eu te amo. Era lindo e cheio de ressalvas. E ele não tinha ligado, lembrou.


A mãe fizera um delicioso sanduíche de pão amanteigado com galeto desfiado dentro. Ela sempre fazia essas coisas perfeitinhas e trazia no seu quarto, com o prato e o grande guardanapo deixando tudo mais bonitinho. A mãe nem lembrava que antes de ela ter ido, com o pai e o irmão ver a encenação da Paixão de Cristo, discutiram rapidamente sobre essa hipocrisia toda da religião.


Flor desejou do fundo da alma ter tido vontade de ir ver. Quando a mãe chegara, foi ao quarto e perguntou: - Adivinha quem foi Jesus? E lá fui ela divagar... Passaram-se três segundos e a mãe interrompeu dizendo que era o pai do filho da vizinha, ex-amiga da prima. Flor completou dizendo que ela já tava grávida de novo. A mãe já sabia e arrematou que o casal ia se casar. O Jesus daquele bairro de periferia ia casar com a mãe de seu segundo filho. 17 anos e o segundo filho. Deixou de pensar em todas aquelas coisas reais que apeteciam o seu ao redor e vagueou nas ideias do filmeco.


E porque se libertara assistindo um draminha norte-americano de romance. O achara interessante. Não só porque fazia referência a idiotice estadosunidense em algumas falas. Não só pelas cenas engraçadinhas de procura do homem ideal, onde a personagem elencava as prioridades clichês de que necessitava. Mas porque a fez refletir um bocadinho.


Certo, também perdera um amor forte e tal. 9 a 2, sem comparação, ela sabia. Até passara pela mente de Flor que se o dito cujo tivesse morrido teria sido melhor. Todavia, no fundo, foi melhor como foi. Tudo é melhor do jeito que é pra ser. Mas a gente só aprende depois, lembrou. Queria não precisar sentir. Queria ficar assim sem chorar com os filmes. Queria comprar frieza e se divertir sem amar. E ele não tinha ligado, lembrou. Flor não sabia o que queria. Se soubesse, não estaria satisfeita. Não estava satisfeita. E tacou-se ali em cima de um computador que nem terminara de pagar. A mesma máquina que suportara o peso dela nesses dias de feriado prolongado.


Estava meio paranóica. Não sabia como apagar a luzinha verde no canto de teclado, que já estava irritando-a. Essa solidão acompanhada já estava irritando-a. Sempre estava assim. E o pior, não conseguia dizer que amava as pessoas que amava. O que seria isso meu Deus?, refletiu. Precisava escrever pra exorcizar.


Queria não ser culpada disso. Seus esmaltes estavam acabando. Antes fossem só eles os derradeiros. Processos, vertigens, pensamentos. A luz verde continuava ali. Imóvel. Seria preciso desligar tudo para apagá-la? Acabrunhou-se. Flor tinha uma flor amarela de E.V.A em cima da mesinha. Tinha flores amarelas na alma. Pintara florzinhas nas unhas da mão esquerda. Mas essas eram vermelhas. Seria isso um sinal? Achava que não. Recebeu uma mensagem de Feliz Páscoa. Resolveu sair da cadeira de plástico que tão bem acomodara suas reflexões. O pai dissera que se não saísse dali, mofaria. Flores não mofam. Ou mofam? Foi beber água e regar-se pra tentar lavar a alma das florzinhas amarelas. Enfim ele ligou.