segunda-feira, 18 de março de 2013
Sim, eu posso viver sem você...
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Queria ver meu gato bêbado
Sempre tirânico, me olha assim displicente e ágil. Gemido irritante, rosna carinhoso, pede abrigo no colchão. A noite pinta seus olhos de um preto mais cheio, mais belo. Dá ares de ternura. Arranha o sofá, como quem diz ter preguiça de viver. Como quem lembra de um passado egípcio de glória. Como quem sabe do poder que um dia pôde ter tido.
Sempre olha ternamente, pedinte. De comida, de água, de carinho, aconchego. E é todo formoso, elegante. Mesmo na indolência mantém uma dignidade aristocrática. Esnobe. De dia, o olhar é frio, de um preto riscado no azul celeste emoldurado no pêlo curto e branco. Maciez. Se estende no tapete até que sua companheira preta, linda, Tulipa, o venha incomodar. Inflada de birras, olhos saltitantes, linguona pra fora, morde o rabo indeciso do bichano lânguido. São opostos que se impelem em disputa dicotômica.
Preto, branco. Excesso, comedição. Alegria, classe. Minha cachorra, meu gato. Mesmo, quando eles correm um atrás do outro, de tamanhos pares, rumo ao nada, me apetecem. É só ai, que a altivez felina se quebra. Tem de fugir da cadela, linda, fofa, feliz. Tem de sair da posição impelida, queixo erguido, patas juntas, corpo simétrico e se jogar no jogo gato-cão. E mesmo depois, não aparenta cansaço. Língua guardada, músculos ao comando, olhar penetrante ou molenga. Queria ver meu gato bêbado. Talvez ele parecesse mais feliz. Mas quem sou eu pra tentar entender felicidade de gato.
sábado, 2 de julho de 2011
Me dá um pincel preu pintar o mundo...

Já fui de preto no branco. Já cai dum mundinho cor-de-rosa. Já descobri que o tudo azul só é feliz em letra de música. Ando que me encarno de vermelho, posto que antes amei anis, púrpuras, turquesas. Hoje caibo bem bem no rubro, seja nos lábios, seja no drama, seja na luta. Ando me atando aos roxos pós-prazer. Brigo com brancos extratores e os afasto para amar o perfeito negro. Me atraem certos amarelos de flores, sandálias, partidos. Mas é na vastidão de um belo colorido que eu alegro meus olhinhos e os torno mais gentis.
Ora, se as cores, como a gente que sofre, quando estão sós, são mais amargas, monótonas. Juntas, entorpecem, preenchem os olhos e trazem à tona instantes, reflexos. Revolucionam vistas e mentes. Chamam. Não há olhar, que triste, não careça de linhas ou formas distintas em cor. Emaranhados de tons e matizes são a pureza do ser. É como se as coisas fossem mais vivas, quando têm cores, e não cor.
Ode a emancipação sortida de nuances, que pintam brilhos monocromáticos em retinas industriais. Mais gente encarnando bombons nas ruas seria felicidade. Fitilhos levados ao vento, jardins especiais de diversidade. Policromia faz bem a saúde. Pelo menos, não deixa a vida tão chata. Ou há sorriso que se segure diante da magia de um misturado de cores? Se assim fosse, os palhaços andariam em monocolor.
Já fui de preto no branco, hoje não mais. Espalho a policromia, porém confesso que tenho quedas abismais pelo encarnado. Faz gosto.
