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segunda-feira, 18 de março de 2013

Sim, eu posso viver sem você...



Sim, eu posso viver sem você... Pois é. Eu sei, estamos juntos e felizes e não teria porque eu dizer que posso viver sem você. Isso pra muita gente pode parecer uma negação do nosso nós. Mas, não. Não é uma negação de você, não é afirmação de desamor. Só deu vontade de dizer e pronto. Eu posso sim viver sem você. E é por isso que é mais mágico. Porque mesmo que não estejamos mais juntos, podemos viver sim, um sem x outrx. É só uma questão de admitir, de ser sincerx. A dor de fim é um PQP, mas passa. E admitir que eu posso viver sem você é entender que podemos ser nós sem ser um, sem no anularmos como seres autônomos. É compreender que podemos aceitar a felicidade dx outrx longe, com outrx, que não seja a gente. E isso é mais amor, é amor maior. Essa “história de eu não posso viver sem você” não passa de mimimi. É somente a ausência de coragem de se aceitar só, de se desadaptar, de afirmar pra si mesmx que se pode viver como e com quem – ou sem quem – a gente quiser.

Eu posso viver sem você, porque estou tão bem com você, e isso não me sufoca por pensar que não posso viver sem você. Estava pensando e achei que eu tenho um pouco de coragem por pensar assim. Coragem de poder viver sem a pessoa que mais amo na vida. Coragem de poder viver sem o olhar mais profundo que mergulho aos gemidos. Coragem de poder viver sem o cuidado diário mais terno que um alguém pode dar. É. A vida pede coragem, como diria Cabral de Melo Neto. E o melhor, eu não preciso pensar em viver sem você. Porque eu te tenho aqui e agora. E é isso que importa. Se passar, você vai ser as minhas melhores lembranças. Se não passar, você ainda vai ser minhas melhores lembranças, a cada dia produzindo mais bons momentos pra serem lembrados. Seu amor me faz bem. ^^

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Porque sempre amou o negro


Tinha uma caneta e não conseguia mais escrever. Seus dedos, já tão treinados, gostavam de açoitar aquela estrutura tão organicamente hierarquizada. Sopinha de letras com organização.

E seu coração tinha mania de só querer escrever quando sentia vontade. Aliás, ele dava de gritar, fortemente, com ar emprestado do vizinho pulmão. Já que era um coração de mulher, fazia-se flor.

Despetalava-se nas letras, ali postas, redondamente, retamente, certamente... Flores estavam por toda a parte. E não sabia sobre o que escrever. A primavera não tinha acabado e já lhe era crônico falar tão delas. Podia falar da nudez do eu, mas cansar-se iria, e lhe era tão fatigante como amar.

Viu que escrever gastava o coração, assim como amar. Disseram que lhe faltavam ternura e confiança. E era verdade. A verdade era forte, e tão pronto não parecesse, ia lhe comendo, inconscientemente, até lhe faze escrever asneiras numa tela de fundo preto. Anormalidade.

“Essa menina é toda ao contrário”, seu pai lhe dizia. Não apenas por deixar o ventilador ligado no quarto vazio, enquanto dormira na noite quente com ele desligado. Mas sobretudo pelas roupas coloridas, pelo jeito temperado, pelas falas desvairadas e por não querer ir à missa no domingo à noite. Viu que ele entendia mesmo das coisas.

Gostava tão plenamente de ser assim, avessa, quanto gostava de escrever besteiras troçadas na página negra. Lembrou de quando era criança e queria ser negra. Achava tão linda a cor morena. Parecia-lhe até, que quando tocava o braço da amiguinha, ele era mais macio, mais carinho. As vozes dos cantores eram mais lindas, e o cheiro da mãe era mais belo. Não tinha o balanço de samba que a amiga tinha. Nem os cabelos tão lindos e negros que completavam a pele escura. Era pois, amarela, sem graça, sem samba, sem cheiro, sem voz ou maciez.

Um dia ouviu dizer que os negros envelhecem mais devagar. Lembrou da avó, e de como ainda era jovem e bonita. Depois foi sabendo das coisas. Navios, porões, correntes. Conheceu orixás, terreiros, origens. Teve sorte. Invejou tanta força naquele sangue que também corria em suas veias. Ficou feliz por saber que sempre foi negra. Deviam ensinar essas coisas direito na escola. Ficam fazendo frustração em criança. Maldade.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Eduardo fala das origens desse mundo


Incrível como esse grande autor, que até inspirou um dos Encontros (Erecom Theresina 2011) da Enecos, coloca em xeque algumas certezas desapercebidas pela maioria de nós. Por exemplo, sempre que há alguma referência às personagens da História, o artigo usado é o masculino, e a certeza é sempre a de que os feitos foram realizados pelos homens. Eduardo Galeano, em Espejos - Una historia casi Universal, aponta para a origem de algumas construções históricas das opressões vividas atualmente. O texto abaixo é só um dos exemplos trazidos na obra. Fica a dica de leitura!

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Fundação da beleza

Por Eduardo Galeano
Em Espejos – Una historia casi universal

Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Estas figuras, bisões, alces, ossos, cavalos, águias, mulheres, homens, não tem idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.

Como eles puderam, nossos remotos avós, pintar de tão delicada maneira? Como eles puderam, esses brutos que a mão limpa pelejava contra os bichos, criar figuras tão cheias de graça? Como eles puderam desenhar essas linhas voadoras que escapam da pedra e se vão pelo ar? Como eles puderam...?

Ou eram elas?



Fundación de la belleza

Por Eduardo Galeano
Em Espejos – Una historia casi universal

Están allí, pintadas en las paredes y en los techos de las cavernas.

Estas figuras, bisontes, alces, osos, caballos, águilas, mujeres, hombres, no tienen edad. Han nacido hace miles y miles de años, pero nacen de nuevo cada vez que alguien las mira.

¿Cómo pudieron ellos, nuestros remotos abuelos, pintar de tan delicada manera? ¿Cómo pudieron ellos, esos brutos que a mano limpia peleaban contra las bestias, crear figuras tan llenas de gracia? ¿Cómo pudieron ellos dibujar esas líneas volanderas que escapan de la roca y se van al aire? ¿Cómo pudieron ellos...?

¿O eran ellas?

sábado, 25 de junho de 2011

As certezas são muito chatas...


Flor tinha espirrado com a poeira das passagens que relia. Fechou o livro, cujas ideias pesavam em suas mãos e mente. Todos na casa dormiam. Era, a cachorrinha malina e, Cidreira, o gatinho de olhos indecisos. Tateou na semi-iluminada pequenez da sala colorida e tropeçou num azulejo. Diabéisso, pensou. Isso é que dá, morar numa casinha velha dessas, tão linda, minha e conflituosa, concluiu pra si própria. Alcançou o interruptor de design arcaico e apertou-o. A tomada tinha uma moldura com ondulações e retorcimentos, como quem delira. Estilo eclético, misturada de elementos barrocos, rococós, e sujeira nas escavações. Desistiu de entender aquela origem da luz e caminhou rumo ao lugar que tropeçara.


Baixou as vistas e foi lá examinar a causa de seu dedão estar latejando tanto. O retângulo parecia solto. Podia recolocá-lo no lugar, porém para isso, era necessário arrancá-lo. Tentou puxá-lo, mas a única coisa que conseguiu foi quebrar a unha que demorou três semanas para crescer e impressionar a amiga. Pelo menos já a havia mostrado à amiga. Tacou-se no quarto e só retornou quando na mão direita figurava um palito novinho que usava para limpar restos de esmaltes e empurrar cutículas. Enfiou o pedaço cilíndrico e fino de madeira na brecha entre um azulejo e outro. Após forçar, levantou o azulejo meio azul, meio amarelo, meio imundinho.


Tal foi a surpresa nos olhos daquela menina, quando meio que brilhou dentro daquele buraco que fizera no canto esquerdo de sua sala, uma chave. Estava coberta duma areia porosa que um dia fora cimento, aliança que unira o chão quente ao azulejo frio. Tirou o metalzinho de textura craquelé do lugar, deu-lhe uma limpada, múltiplas assopradas, esfregou na barra do vestido de crepe, até que parecia decente.


Arre égua, como pode isso?, pronunciou baixinho. Sentou no sofá velho, recoberto de mantas e, ficou olhando a chavinha. Era bonita, bonitinha. Comprida, tinha numa das pontas, vários círculos e buraquinhos, que cerceavam algo semelhante a um coração. Quase parecia uma chave de fenda apaixonada. As bolinhas seguiam e se transformava mais acima em uma haste de três curvinhas. Era como se um anãozinho de trinta centímetros tivesse apertado, com suas minúsculas mãozinhas de força estupenda, e deixado as marcas dos seus dedos por ali, pra todo o sempre. Só de um lado, porque do outro, não eram curvas que adornavam a pequena chave.


Esse outro lado era liso, e a maciez do metal era molestada somente por um pequeno relevo amontanhado. Quando se acabava a haste de três curvas e uma montanhinha, logo assimetricamente, uma configuração disforme tinha perfurações também circulares. Três furos menores, com raios que diminuíam em proporção aritmética. O buraco maior parecia uma briga de círculos famintos e devoradores um do outro. Mas logo nessa fenda nascia uma argolinha, cuja irmã menor se encontrava do lado de fora, na beirada da chave. E no topo da bichinha, um cristal arranhadíssimo, encravado tortamente num meio de círculo.


Depois de ver e enxergar aquele bocadinho de detalhes dementes, Flor achou a chave feia. Quase sentiu vontade de sepulcrá-la novamente debaixo daquele azulejo. Mas curiosidade é coceira que só passa com pomada de soluções. E daí a moça se inquietou. Foi regar suas plantinhas, com ganas de quem acha que programas chatos e caridosos enriquecem a alma e amaciam os tormentos. Quem dera. Matutou e nada de ver lógica naquilo tudo.


Estava ali, às quatro e quinze da manhã, com uma chave na mão, um azulejo e vários parafusos fora do lugar. Tinha tantas hipóteses tão absurdas na cabeça, que se cansou. A velhinha, que morava ali antes dela, podia ter sido bela nos seus anos de moça, e daí, teria tido um dote, guardado em um baú, cuja chave era aquela. O amado da velhinha podia ter fugido com o dote, depois de ter arrombado o baú, e a pobre da Dona Toinha - a velhinha -, tinha enterrado a chave ali, junto com seu amor traído. Claro que não!, refletiu. Ave Maria, tu acha!?, claro que não, claro que não...


E se, e se... ah! E se quando a casa estava sendo construída, um dos pedreiros simplesmente colocou a chave ali. A chave poderia ser do diário da filha dele, que o moço acabara de ler e descobrir que a menina perdera a donzelice. De raiva, queimara o diário e jogara a chave debaixo de seu trabalho. Hum, acho que não!, ultimou. E se for uma macumba? E se for de esquecimento? e se for de uma porta?.. Flor achou melhor desistir. Provavelmente nunca saberia sobre a origem da chavinha meio feia, meio bonita.


Se consolou com o fato da chave ser mais bela assim, toda cheia de mistérios. No fundo as coisas são só coisas. O que importa é a história por trás delas. E como Flor não sabia a verdade, podia botar na chave a história que quisesse. Era mais interessante. Tinha uma virgula de frustração, mas quando controlou a coceira da curiosidade, tirou do porta-bijuterias que tinha ganhado do ex-namorado, um cordão e meteu-o pelo buraquinho da chave. Ganhou um novo adorno. Amuletou a chave, fez pingente guardador que não tirou mais do pescoço. Desde então, esqueceu da história e só recorda de vez em quando. Toda vez que alguém pergunta de onde é aquela chave estranha, ou quando seu peito se sente pesado.


O objeto adquiriu significado, ganhou valor. Ficou parte dela agora. Depois venderia num brechó qualquer. Enquanto isso, aquele pingente feio integraria sua monotonia. Descobriu que mondrongos podem ser encantadores e necessários.