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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

[Amor em tempo de redes sociais] Capítulo 6 – Mais uma vez

Pintura: Ewelina Ladzinska

E um perdão tinha feita a vida eterna novamente. Eram momentos tão ternos, que quase acreditaram na premissa platônica da completude. Flor lembrava do começo sem pretensões, quando seu coração era casa assombrada, fechada, de interior escuro. Mas ele veio, e limpou as teias de aranha, as dores tacanhas, os brilhos mal luzidos. E fez cantar. Arranjou-se uma rotina feliz. Era felicidade que inundava linhas de tempo alheias, em fotos, palavras, argumentos. Perguntava-se, como em tão pouco tempo, tudo era tão intenso, exposto.  

Perdoara, antes mesmo que o coração pedisse que ela passasse, ali, às vistas de todas e todos, de um relacionamento sério para solteira. Quis evitar que curtissem sua dor. Reflexionou e ninguém soube, apenas os amigos e as amigas reais. Sem representações. Ou com elas. Sentia ainda a traição, sempre reiterada, dia ou outro, mas a importância naquilo era nenhuma. Estava feliz. E era tão feliz que podia continuar ali, sem mesmo desejar tristeza.

O trabalho a sufocava. Ele também. Nunca imaginou que aquele rapaz solto pudesse engolir rotinas, adaptar-se a ela, sentir-se metade sem a sua atenção. Mas estava inseguro, pedia, pedia, pedia. Por mensagens, ligações, voz abalada. E ele tinha o ciúme de um leão. Flor sempre acreditou que quem não deve não teme. Se ele teme, então é porque devia, refletiu. E devia, mais ainda. Estava certa.

Depois do amor - como sempre, ele a fazia plena – sentiu uma tristeza percorrer-lhe. Pegou de súbito o celular do rapaz, enquanto ele cantarolava no banho. Sentia aquela invasão, como se o estuprasse. Contudo, sentiu mais ainda, que era preciso. Violentou-se também por fazê-lo, pois prezava, imensamente, pela liberdade. Sabia que as imagens daquela maquininha que alcançava com leves toques só tinham acesso por senha. Mas foi. E fez de um jeito, que a segurança foi burlada, sua vida abalada, seu mundo ali se achatou.

Perdeu ar e perdeu terra. Embora em cama macia, flutuou. Raivosa, terna, racional. Pensou, que escroto. Sentiu vontade de esfaqueá-lo, cuspi-lo, quebrar aquele mesmo celular pelo qual ele falara com ela. Mas prostrou-se ali, e viu, mais uma vez, um rosto sem graça, em baixa resolução. Viu mais do que deveria para poupar seu sentimento. Gelada, sem vida, desacreditou no amor. No seu, no dele, no amor. Mais uma vez? Por quê? Foram três minutos que tiraram sua cor e trouxeram pensamentos simples. Era como se já estivesse preparada. Se já soubesse. Lembrou que sentira mais cedo, como da outra vez.

Ele cantava no banheiro. Ela gritou.

- Quem é Jana?
- Jana? Trabalha comigo. Porque?
- Deixa de mentir. Eu tenho muito nojo de você. Muito.

Ele espantou-se com a frieza com que ela falou aquilo.

- O que foi? Você viu alguma mensagem?
- Não dá mais. Não dá. Eu vi as fotos. E a legenda.
- Foi só uma vez.
- E ter sido uma vez torna as coisas melhores? Acabou. Não me procure mais. Nunca. Se veste. Vamos embora.

Ele calou-se e nem sequer tentou retrucar. Reparou que ela estava calma, sem sal nos olhos. Estranhou. Saíram dali. Conversaram na praça, como de costume. Ele disse que não a merecia. Ela concordou. Flor virou a esquina. Deveria ter sido um adeus. Deveria. Ele chorou, como quando o pai morreu. Os dois se encheram de porquês. Era para ter sido o fim. Era para ter sido.

domingo, 14 de agosto de 2011

O vaso vazio de uma flor sem forma


Antes, angustiado era o meu estar. Fazia penúrias de besteiras plenas. Mas por tempos, rumei por campos quentes, verdes, por lindos caminhos de gente tão bela no dentro e no fora. Recarreguei meu estoque de sorrisos. E assim, nem que quisesse poderia recorrer às tristezas banais. Mas a solidão, sempre regada de companhias intensas e lembrançosas, sempre volta a piscar na boca, vazia.

Meus pés latejariam pelos caminhos que andei, se neles não calçasse sandálias de vento, mais leves que as lembranças que ainda restam nas estamparias de minhas camisas. Meu tempo é um vai e volta, uma confusão. Não queria dar mais trabalho ao meu pensamento. Mas o coração, que é casto na sua indecência, me chama, me grita, me posta no muro, numa parada qualquer dessa estrada febril.

Queria por vezes ser toda ébria e enfrentar a vida sorrindo, feito o bobo que é mais feliz por que já descobriu que não precisa sofrer. Queria negar essa vontade tão humana de ficar sofrendo por algo que é tão passado, que me volta pruma esperançazinha, meio ridícula, meio indigna.

Minhas unhas não mais crescem de orgulho da mudança. Nem se colorem no pecado do querer. Meu liso é por outros motivos. Meus porquês já não se alteram. É desse vazio que me alimento. Numa hidroponia sem mesura. Nessa mania de me vestir de sentimento em flor e de flor em vaso frio, vou tomando formas que não esperei tomar.

Como pode a forma tomar o vazio? Ou será o vazio que engana a forma? Minhas respostas são cheias de vícios. Minhas perguntas não querem respostas. O lancinar do vestido na perna irrequieta preocupa a boca nervosa que rói a unha. Mordo e engulo meu desejo de mudar. Já não me apetecem os esmaltes nos dedos. Já não me arrancam delírios as flores no cabelo. Já consegui outros jardins que merecem cuidados.

Dedicar-me-ei não mais às orquídeas dos meus vestidos. Aliás, descobri nos canteiros por onde andei, seres livres, cuja fragilidade me assustou à princípio, mas que depois me mostraram a sua forte beleza. Borboletas me ensinaram a cantar. Estou a tomar lições de bater asas.