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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Círculo


O ventre cresce em formato de bola e acolhe a vida. A vida vem e escorrega pra vida, já no grito que antecede a luta. Pois a luta é como um círculo já de início, e posto que ela não tem fim, tal qual o círculo, o olho enxerga a luz que o guiará.

Vem pressa vida bela e injusta. Onde as gotas cairão, seja do olho redondo, seja do céu-horizonte que mal cabe num só olhar. Mundo que reduz a imensidão do luar círculo, tal qual o astro que sobe de dia e clareia as mesmas vistas redondas.

Abraço, alto-falante, mandala, circo. Tudo gira, e o que gira deixa a vida loki, linda, como o tempo que passa porque a terra gira, entre um tapa e destapa de luz. Êta mundinho-bola que te chuta pra aventura diária da repetição. Indo ali, dormir um sonho. Pensar que amanhã a vida pode ter um buraquinho, de onde escorre felicidade. Tamanha.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Farsa histórica, número de vida, dia de ócio, amor e mudança


Era 7 de setembro. Faltavam sete dias para o seu aniversário e, do fim de seus dezessete anos, decidiu que era dia de errar. Encontrou-se com o namoradinho, primeiro na vida, e fez dele primeiro naquilo que ele tanto pelejava conseguir.

Despediram-se dos amigos e caminharam naquelas ruas frias, ainda cheias de mato e casas bucólicas. Na cidade mocinha, assim como ela, trocava ternura com aquele seu primeiro homem. Tudo era nebuloso ao redor, menos o calor que emanava deles. O abraço do menino, que era quase meio metro mais alto que ela, a confortava rumo ao que sabia a esperar.

Desses jovens que se beijam loucamente em qualquer esquina da cidade, repetia hábitos, mas dessa vez, a esquina, ou mesmo um muro escuro, não seria suficiente para ocultar sua travessura.

Sabiam da existência daquela vilinha de casas, cuja construção ficara inacabada há alguns meses. E cujo mato aflorava dando ar de natureza aos tijolos cinzentos. Era naquilo que um dia poderia abrigar alguém, que escolheram recanto. A noite já despejava escuridão no lugar e por sua lembrança passou uma letra da música cantada na infância. Segurou-se para não pronunciar os versos “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não...”, quando o braço forte que tão bem conhecia a puxou para o que seria outro compartimento.

Estavam ali, sós, entre quatro quase paredes, altas o suficiente para escondê-los da rua e dos olhos passantes. Ali, em pé, beijavam-se e conversavam. Ele, insistentemente carinhoso, talvez a amasse, mas queria um amor concreto. Ela, relutante, desfazia suas investidas com medos confessados. O teto que tinham era de um preto bonito e intenso, respingado de brilhinhos, aos quais chamam estrelas. Vez em quando, encaravam a noite e tomavam banho de luar.

Foi numa tal hora que outros dois rostos, também tão jovens, pisaram mato e olharam para eles. “Tá ocupado”, riu-se o garoto, já saindo com a menina à mão. E do palpitar de coração mútuo voltou-se o silêncio. O casal não deixou de rir também. Esmagaram o constrangimento num beijo rouco e não tardaram a descobrir-se, juntos, sem pressa.

Ele se espantou por sua pele tão branca, tão branca de lua, e a amou. Ela provou coisa que nem sabia existir tão forte. E perdeu aquilo que ninguém devia guardar. Perdeu num abraço acalanto, num beijo torpor.

Apanhou roupas e arrependimentos, repensou-se. Refletiu como farsas históricas podem marcar dias de ócio para construir pontos de início, pontos de quebra de eus. Nunca escondera da mãe que se entregaria por amor, o que não era sinônimo de esperar por sacramentos que ela não pensava querer pra si. Desde então reformulou conceitos. Concluiu que o amor é sempre feito em destroços.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Queria ver meu gato bêbado



Sempre tirânico, me olha assim displicente e ágil. Gemido irritante, rosna carinhoso, pede abrigo no colchão. A noite pinta seus olhos de um preto mais cheio, mais belo. Dá ares de ternura. Arranha o sofá, como quem diz ter preguiça de viver. Como quem lembra de um passado egípcio de glória. Como quem sabe do poder que um dia pôde ter tido.

Sempre olha ternamente, pedinte. De comida, de água, de carinho, aconchego. E é todo formoso, elegante. Mesmo na indolência mantém uma dignidade aristocrática. Esnobe. De dia, o olhar é frio, de um preto riscado no azul celeste emoldurado no pêlo curto e branco. Maciez. Se estende no tapete até que sua companheira preta, linda, Tulipa, o venha incomodar. Inflada de birras, olhos saltitantes, linguona pra fora, morde o rabo indeciso do bichano lânguido. São opostos que se impelem em disputa dicotômica.

Preto, branco. Excesso, comedição. Alegria, classe. Minha cachorra, meu gato. Mesmo, quando eles correm um atrás do outro, de tamanhos pares, rumo ao nada, me apetecem. É só ai, que a altivez felina se quebra. Tem de fugir da cadela, linda, fofa, feliz. Tem de sair da posição impelida, queixo erguido, patas juntas, corpo simétrico e se jogar no jogo gato-cão. E mesmo depois, não aparenta cansaço. Língua guardada, músculos ao comando, olhar penetrante ou molenga. Queria ver meu gato bêbado. Talvez ele parecesse mais feliz. Mas quem sou eu pra tentar entender felicidade de gato.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A lenda do poste fofoqueiro


Era alto e luminoso. Quieto, passava o dia naquela rua, vagabundeando parado. Era nas noites que se fazia em fulguras. Iluminava bêbados tépidos, casais delirantes, passantes esquivos. A postura sempre ereta e o ar de fria serenidade observavam barras apressadas de roupa. Já vira de tudo. Morte, vida, atropelamentos. De ares altivos, acendia-se a cada vez que, terminada a luz solar, a lua se apossava majestosa do céu sombrio. O diâmetro de sua luz não era de se jogar fora. Tinha melindres vez por outra. Ora era fraco seu brilho, ora queimava pupilas de gatinhos indecentes. E pensava, de dentro do comprido retângulo sólido que lhe era a forma, o quão pequena e bela pode ser a vida de um poste.

Era um poste sim. E tinha consciência de poste, de poste maduro que era. Cumpria seu papel social lá na rua. Se equilibrava em fios, junto com a meia dúzia de companheiros postes, que por lá iam passando, estáticos. Feito de pedra e ferro, sentimento que é bom tinha pouco. Acreditava por coração, a lâmpada redonda ali presa à ele. Um coração da noite. Um coração que abrilhantava a noite. Se orgulhava disso.

Posto que um dia, como sempre ali estava, veio um dálmata pleitear lugar junto aos pés que nunca tivera. Não tinha olhos que faiscassem de raiva, mas tinha uma energia que lhe corria nas veias. Fraca, desestimulada, a energia subiu-lhe e nem sequer foi capaz de bater funcionamento no coração instigado da noite do poste. Com o ao-redor demarcado pelo cão, que rebolava sobre a calçada quente, poste ficou nostálgico e passivo, como era determinante de sua personalidade de poste.

Ser inanimado não é fato de toda deserventia, pensou. Conheço todos, as histórias me apetecem. E sei que das lembranças de casos de outrem, minha memória se enrijece e fica por horas me divertindo em flauta, concluiu. Dia certo se pôs a trocar historinhas de gente com o poste amigo. Conduzia pilhérias, escárnios e altas revelações pelo fio de cobre que os unia. Não faziam em maledicência. Mas se riam daqueles seres tão menores, que de vez em quando transplantavam corações de postes.

Ainda sem ter nem língua, poste saltava suas impressões da gente para os colegas. Corpos davam-se às mãos, corpos se batiam, corpos se abraçavam, corpos corriam, andavam, se cruzavam, sem nem sequer se ver. Foi identificando diferenças, que depois banalizou. Mas compartilhava o que via. Até que um corpo eletricista ouviu uma conversa de poste e espalhou pela rua o quão fofoqueiros eram os postes, mais ainda aquele comum. Desde então, os moradores do por-ali tem o precavido hábito de se preservarem diante de postes. Eu que não acredito nessas coisas, me escoro neles, ainda que me assombre o medo de choques.