
Furtivamente entrou. Já não sabia do que estava fugindo. Se do homem que voltara a encontrar ou da chuva que assolava suas flores. Encharcada, foi a cozinha. Pegou um copo e a garrafa de vodka que aprendera a beber. Estava escondida dentro do forno, já que esse, a muito tempo não esquentava seus deliciosos bolos de banana. Talvez achasse que a bebida pudesse afugentar certos pensamentos... Enganou-se.
Subiu as escadas com passos mortos, sem vontade. Sabia o que ia encontrar lá em cima. O mesmo quarto, os mesmos móveis. Tudo igual. Precisava compulsivamente mudar. Tudo. Transformar. Foi até o mesmo armário dos últimos cinco anos e tirou a caixinha de passado. Ali dentro, seus pesares. Revirou-a. Podia dizer que era alergia, mas a verdade foi que seus olhos não agüentaram aquela nostalgia toda. Era um semi-baú de Pandora. Eram caquinhos de sua jornada.
Migrou para o espelho. Já não via aquilo que tanto lhe agradou a uma década. O tempo não fora gentil com ela. Concluiu. Ainda molhados, os olhos tinham uma morada carcomida, linhas aprofundadas saiam das suas extremidades. Cabisbaixos, sem tanto vigor, combinavam plenamente com as curvas também já fundas que saiam da boca rumo aos cantinhos do nariz.
Ela tocou aquele rosto todo que parecia temer, de uma sensibilidade excessiva. As faces já não se enrubesciam como antes. Antes. Como poderia prever? Como quando ia a praia. Saudável, biquíni minúsculo, jovem. Jovem. Entre ela e a areia somente a toalha vermelha. Fritava horas naquele sol a se bronzear. Sempre estava com uma cor invejável, dourada. Não imaginava que isso poderia consumir em médio prazo, a mesma pele, que era a máxima de seu exibicionismo.
Contudo, lhe restaram os lábios, ainda quase intactos sob o efeito do tempo. Lábios que lhe faziam relembrar seu frenesi de musa inglória. Quando os pobres mortais, homens comuns, sonhavam em suplicar-lhe um beijo, por mais breve que fosse. O tocar daqueles lábios era o desejo profundo de cada homem daquela pequena cidade. Apenas um, porém, os teve, conduzidos em beijos de fogo, paixonite aguçada. Extrema e recíproca. Mas isso não importava mais. Agora o passado se fazia apenas em fumaça mental.
O sentimento ainda lhe incomodava. Mudar. Abandonar tudo. Se jogar no irreal, no perdível, no incerto. Era confiável? Não tinha mais idade para aventuras. O que os outros pensariam? O que seu marido faria? O que suas crianças sentiriam? Cansou de pensar nos outros. Abdicar-se de si já era tarefa de anos. Decidiu.
Iria caminhar por outros mares. Ele dissera e reforçara. Iria sublimar-se, anarquizar. Faria tudo o que nunca fez. Amaria. Se perderia sem saber o porquê. Armou a mala, apenas com o básico. Não, não seria suficiente. Rabiscou algumas explicações no verso de um contrato velho. Vestiu-se de felicidade e desceu. No espelho algo tinha mudado.
Verificou naquele instante que a felicidade não se alcança. Ela é a própria busca. De pedras, flores, frustrações, alcances. Estrada. Traçada a cada levantar, na concretização dos pequenos sonhos. Só que acabava esquecendo isso, esperando algo maior, que talvez nunca viesse.
No fim– pensou – nada era, nada tinha, além de lembranças que a consumiam. Interna e externamente. Na sala correu pro telefone. Na linha, uma voz fria, automática, lhe informava que o número discado já não mais existia.

Começou a se questionar. Qual seria o papel dele? Pensou. Complexificar as posturas éticas da infância na construção de uma formação solidificada no amor? Mais que isso. Flor acreditava no ser que mostrara a ela todas as possibilidades positivas que a palavra caráter podia oferecer. Personificação da honestidade. Até demais, acreditava. Exemplo, espelho, lugar. Batia na porta e com medo_receio de entrar, pensava a cada vez, como tudo passava tão rápido. Nos papiros inconscientes dos vexames escolares, era nele que ela pensava. Apoio, base, colo pra chorar. Carões de sobra. Tinha. Carrancudão, e ela lerda, mal percebia as covinhas do rosto sendo aviltadas pelas pás do Senhor Tempo. Era homem_trabalho. Demasiado, condição. A pele chega era escurecida_avermelhada pelo sol em excesso. Falta de instrução sobre o fator 15, no mínimo.
Era só aquele olhar bruto terno de reprovação ou expressão de carinho que o tornava mais real. Cargueiro. Das contas, do lar, da gente dela. Se sufocava pra dar ar. Plantava, não somente, e continuava a regar. As mãos calejadas, o rosto cansado. Não era mais como antes. O trabalho parecia lhe exigir demais. Como nos porres, em que já exausto daquela vida mesma pesar, vomitava no pé da cama. Talvez quisesse externar os males do mundo. Não ganhava na loteria. Nunca, apesar de sempre tentar. Só restava o serviço. E descansar de um com outro mais maneiro. Sem qualquer retribuição. Cada gesto soava forte. Equilíbrio.
Era permanente, acompanhamento, busca. O cuidar era a constante vigilância, mesmo sob os pesares do seu mal humor, perdoando os defeitos, as falhas diárias, os não-entendidos. Era o único homem que fazia do sofrer o maior pesar da humanidade, queimando no peito dele silencioso. Que encarava a água nos olhos dela, procurando resolver por atos ágeis os motivos que levaram às lágrimas. Era a preocupação que a chateava e escondia as verdades de um futurinho que ainda viria.
Por tudo isso, o amor - não exprimido por beijos ou abraços rotineiros não dados - só conseguia escorrer de manhã, no rápido “a bença pai”. Não conseguia demonstrações maiores. E chorava por isso.

Desceu do carro. Era avistada de longe. Podia. Possuída pelo escarlate, parecia emanar ferormônio. Era natural. Achava aquele ambiente tão frio. Mas era para isso que estava ali. Algo podia esquentar. Ela e o lugar. Ouviu os passos rápidos, como só ele podia dar. O encontro estava forjado. Era só esperar. Montada no scarpin preto, salto fino, 12 cm, esperou. Já batia um vento gélido. O suficiente para dar contornos diferentes aos bicos dos seios. Não gostava de nada que lhe prendesse. Fossem deveres, valores, sountiens. Existiam exceções, obviamente. Mãos fortes em seus cabelos com apertos firmes, era uma delas. Excitava-se só com a idéia de vê-lo, quiçá com as demais variáveis.
Os passos apressaram-se e trouxeram um olhar assim desconfiado que esbarrou nas curvas dos quadris dela. Que sentiu os olhos queimando suas costas inteiras e virou-se. Caminhou até ele, e sem dizer nada, vendou seus olhos com o lenço, cetim de oncinha importado, que tirou da bolsa turquesa. Deixando-se levar, caminharam alguns momentos. Ele percebeu que entraram no carro. Ela tirou-lhe a venda e a camisa. Subiu nele.
A língua percorria caminhos, que ele não sabia o porquê, eram tão quentes. Escalou o pescoço, o peito, em movimentos fulgurantes, geométricos. Parava. Já acometido daquele processo masculino natural, segurou-a contra si, com a mesma rigidez de seu membro. E ela continuou até encontrá-lo. Apoderou-se como criança faminta, que brinca em vaivéns alucinantes.
Entorpecido, rasgou-lhe o vestido. Agora ela não pertencia mais a si própria. Era somente das mãos dele. E as mãos, senhoras de tudo, tomaram o poder. Dos bicos, da cintura, das coxas, escorrendo, correndo, puxando. Até entrar. Fez do corpo dela a morada do dedo, que indeciso, entrava e saia, arrancando-lhe os famosos lânguidos gemidos.
As bocas brigavam, machucando os lábios de tanto desejo. Lambuzavam-se na saliva do outro. Era uma batucada ritmada por suspiros secos, sussurros espessos, batidas de coração em desespero. Não conseguiam achar o que pareciam ter perdido no corpo do outro. O banco já reclinado do carro vertia-se escandalosamente naquela aflição. Até que ele, em descontrole, se pôs sobre ela. Plantou-se nela. E dançaram... Ela ao som de um maracatu mental, num rebolado regrado, comprimindo-se por paradas e acochos, de um lado a outro, de trás pra frente. Ele, num xaxado sem-vergonha. Conduzia, se deixava levar, arranhado pelas unhas encravadas nas suas costas, lhe arrancando terríveis dores de prazer. Sentia. Forte, suor, vibrações, beijos cada vez mais profundos. Queriam alcançar o céu, o interno, a alma. E simultaneamente lá iam os seios delas suplicar mordidas afuniladoras, lambidas redondas, chupadas macias.
E foi a boca passear por suas montanhas, até chegar no contorno central. E abrir novos lábios e explorar com retidão, sem aberturas para erros, com aberturas pras mãos. Já enlouquecida, dominou-se pela lamentação extrema e orgásmica. Percebendo, ele, foi lá e fez. E por acaso ou pelo ocaso misturaram-se abstrações, o sólido se desfez em líquidos. Permaneceram tântricos. Desceram do carro. O luar brega da noite cobriu os corpos nus dos dois. Queriam correr de novo. Ele engatou a marcha, acelerou novamente o carro, e pela estrada deserta, se amaram de novo a 75km por hora. Podia ser mais. Podiam morrer ali. Mas não, ninguém morre de prazer...

Porque é igual e é diferente. O conflito está ai. Estranhar é normal. Já que a normalidade é um estado de espírito. Conviver é descobrir que nada é semelhante e que tudo se parece. Tolerar é quase impossível. Encarar o outro como a extensão de si próprio é muito bonito. Mas a realidade mostra que nos cenários cotidianos mesmo os pares não se aceitam.
Que as energias banhem a força de vontade nas tentativas diárias de aceitar o diferente. As situações, as vontades, o outro. Que os arroubos solidários não se restrinjam aos fins de ano, que a esmola assistencialista migre para ações efetivas de melhorias da coletividade e que os amores às coisas se transgridam e transportem ao próximo. Esses podia ser os gritos da pacificidade modificadora.
Achava tudo aquilo, certo. Queria ir além. Sabia que não cumpria, ninguém cumpria, o que estava dizendo ao PC. Tentava ao menos. Começou de novo.
Procurar se enxergar no outro em cada ação diária é uma tentativa mesmo que diminuta da reinvenção de um outro mundo possível. Interno, externo...
Realmente, aquele não era seu dia. Desligou a máquina que lhe auxiliava a exprimir pensamentos. A rua podia ter aspirações, inspirações melhores. Gente. Nem sequer conhecia os vizinhos. Morava ali desde que nascera. Era culpa da sociedade contemporânea individualista! É, realmente era fácil isentar-se. “Tentar ver diferente...”. Desceu a rua da menina que mais detestava desde a quinta série. Se perguntou o porquê. Não lembrava. Classificou mentalmente o homem com o saco, sujo como ele, de mendigo. Atravessou a rua com medo. O dono da bodega, homem gordo que sempre soltava piadas inúteis, descabidas, cochilava na rede, em posição de quem estava acordado. A fofoqueira da rua lhe passou um olhar inquisidor, debulhando seus pensamentos feito espiga de milho verde. Sentada, gorda, dia após dia no banco de madeira de jambo, fitava cada transeunte, já seu velho conhecido de olhar, com ares curiosos de despir as mentes distraídas.
Todos aqueles estereótipos lhe serviam agora para entender as divergências de compreensão. Conflitos. Assim como não gostava de homens brancos, baixos ou de olhos azuis, havia gente de outros gostos. Mas partir de não gostar para intolerâncias, racismos, xenofobias era insanidade. Isso de tentar suprimir o outro com ganas de superioridade é forma passível de apreensão. Ainda mais vinda do ser humano, fraco, insensato, racional.
Foi como quando perguntou ao skinhead no bar, naquela quarta-feira. O suspensório vermelho, era nervosamente segurado. Insegurança. São superiores para si, como reforço de apreensões subjetivas mais intensas, internas. Pena. A quinta cerveja entregou. Excluía para ser incluído. No grupinho, confessou. É o reflexo do meio social maior. Pensou como aquilo poderia ter gerado uma Guerra Mundial. Qual seria a saída agora? Apontar formas de convivência pacífica. Nas casas, empresas, ruas, senados e até nas igrejas. É o jeito.
Entendeu depois. Atos falhos, atos certos. O acerto se concretiza no erro. A dor é amadurecimento. O estar com o outro é apenas costume. Que se perde, fácil. Tudo é questão de passar. Dias, meses, novos amores. É também o tempo, lanterna dos afogados de mágoas. Querer o outro somente pra si é tão neo-liberalista. Pensou. A democracia do amor está em rever os conceitos. Cabelo novo, sapato novo, fins de conformismos. Encarar a solidão como processo reconstrutivo inicial, no qual se aprende a ver que os papéis poderiam estar invertidos. E que tudo é uma questão de ponto de vista. Só falta coragem de realizar-se nas ações podidas, nas contas partidas, nas expressões impensadas. Vastidão.
Trair. Buscar outr@ é não mais compartilhar das mesmas idéias. A cama não está mais quente, a vida está descoberta. Se amar é dar proteção, amar mais é livrar do perder, do sofrer, do subjugar. A dita farsa do simulado que poupa dores é apenas a fraqueza de evitar trazer culpas maiores praquele dono de culpas. Arrependimentos sempre existem. No fundo são verdadeiros. Culpa de novo dos preceitos morais, da ética interna. Não são tão fortes. Os impulsos podem mais. Estão certos. Acredite.
Regar-se no sal dos primeiros meses pode sarar feridas. Embora o corte, profundo na perdida verdade, permaneça mais além. Vez ou outra, sangra. Os depósitos de confiança adulterados deixam saldos negativos para futuros novos empréstimos. Todavia a lógica de mercado irá convencer da importância de novas tentativas. Necessidade. Até que outros olhos se batam nos seus, naquele estalido literato musical típico, essa nuvem cumbulus nimbulus continua a assombrar. Demora, ou não. A luz quando vem, seja a mítica da caverna platônica ou mesmo de crepúsculos aberrantes, figura entorpecimentos, redescobrir, recomeçar.
Há que se reavaliar que o perdão não pode ser de plástico. E que a alegria etílica deve se transportar para as melhores desculpas sóbrias. Seja de um lado ou de outro, nesse processo dialético – que é a traição – os pesares são múltiplos, compartilhados. Mas depois se dissolvem. Até a próxima vez. Com a mesma pessoa ou no próximo relacionamento. Cabe o perdão a quem se julgar suficientemente interessado em futuros deslizes. Fato.
Fazer ou não fazer. Pensar no outro, teu até então, que vai doer-se na descoberta, é ter consideração? É correto perder oportunidades, experiências, novas possibilidades de amar?Nessa balança, um vai ficar mal. Pelo menos por um tempo. Tudo é escolha, e acertando ou não, se fez o que tinha de ser feito. Resta a certeza. Não existia nada a perder. Nem relação, nem o outro, nem amor.