Mas gostava. E nesses pedaços da vida, feito boleros, lá ia respondendo precisamente “quiçás, quiçás, quiçás...”. Deleitou-se nas rinhas caninas das idéias de ir-e-vir. Dar-se-ia melhor naquela companhia. Reflexão. Seus Sis multiplicavam-se. Retardou o crescimento do seu ego por uns instantes. Verter-se-ia em sorrisos naquela dobra de rua acidental-provocada. Tinha tomado aquela decisão de barquinho, quando se navega por plácidas correntes psíquicas. Era só se preparar para o barulho das ondas. Nauseou-se. Sentia-se bem, formigada por uma segurança quase uterina.
O bicho de pelúcia, abandonado naquela fofura piedosa, tinha necessidade de carinho. Viesse ele ou não, ficava ele lá, com a cara de satisfação estampada sempre. Tedioso. Quem produzia a precisão de afetinhos era ela. Que sempre o esquecera por travesseiros poeirentos. Criança que reproduzia ludicamente o conforto de outrora. Seu, não do ursinho. Ela deu passos pequenos. Usava salto. Cuidados. Ela tinha precisão de afetinhos. Quem produzia a necessidade de afetinhos? Ela, não o ursinho. Ousou controlar-se com sua liberdade. Podia optar por qualquer um. Ou até por nenhum. E ficaria bem por isso. Descomprometidamente bem por isso. Compromissos próprios. Podia brincar com seus próprios brinquedos. Afundar-se nas suas generalidades. Pois que era tão artífice de si, de seus próprios contextos. Vulnerabilidades insanas a assolaram.
Voltou ao quarto e agarrou o exemplar de um passado prodigiosamente esfaqueado. Ternamente prostrou-se junto a ele, encolhendo-se e parecendo querer esganá-lo ternamente. Queria tirar-lhe a vida. Frustrou-se. Invejou-o por ser inanimado e feliz. Bobo e cortez. Lembrou, esqueceu. Dormiu.
E vem sempre os porquês. E depois passa. E é assim mesmo. E estrangula as veias. E logo elas vão se soltando. Então, estado. Despótico de Direito do Eu. Egocentrismos naturalizados. Roubam-te a vida do teu cachorro, roubam-te o celular na parada de ônibus, roubam-te o tempo, roubam-te os amores que não mais cultivavas. Assumir apenas tua parcela de culpa. Perder. Ganhar. É essa mania de guerra interna dentro de ti, dentro de tuas relações, dentro dos mundos que te explodem. Jihah interior. Não quero retomar discussões de escritoras monótonas. Não objetivo opiniões descritivas impositivas. Não tenho pormenores filosóficos complexos. De vivências estreitas e pensadas em longos prazos é que se constroem minhas linhas. Rasas, diria.
E foi pela foto achada que me motivei sobre o teclado. Lembranças sádicas, sadias. Foi naquele dia em que trouxe a pedra de brilhinhos múltiplos, irrelevantes. Até pus data, como se fosse presente. Roubei a pedra de um chão burguês de frente de hotel. Decoração elitista e brega. Mas lá estava ela, igualzinha a todas as outras. Aleatoriamente a escolhi. Um grupo de amigos passeando pela beira do mar, calçadão. Fraternalidades. Brincadeiras, pulinhos, queriam nos arrancar de todo nosso amor demonstrado. O casal perfeito, intitulavam. Grande farsa que nem sei se por aqueles dias me era verdade. As pessoas sempre se incomodam com isso.Inveja, talvez. Ou apenas pelo constrangimento da hora.
De turquesa, já pretendia misturar-me àquele mar de sustos. Tal qual a cor que me era refletida, suspirava olhares alegres de uma tristeza insuficientemente forasteira. Naquela época, nada me tinham tirado. Nada eu tinha perdido. Nada eu tinha deixado roubarem. A solidão por aqueles tempos era acompanhada. Bizarramente. Nos momentos perfeitos solidificados, uma agonia apossava-me de mim. Uma dor de cabeça misturada às náuseas ao olhá-lo. Fugia e regressava do corpo em questão de milésimos. Nunca comentei com ninguém. Mas agora lembro.
Estranho como a felicidade pode ter tais efeitos colaterais. Pensei no início que podia ser a pizza, ou o excesso de trabalho. Mas não. Independente da comida ou do feriado, do lugar ou da roupa usada. Era sempre num daqueles instantes, onde a satisfação completa demais sufocava. Não faltar nada também é aterrador. Agora paro e penso, ao me ver ali pensando. Já não era feliz com toda a segurança que tinha. O fingir que ama é tão enganador que engana até a ti próprio. Pois só pude ver hoje, o quão é mais confortável a liberdade da escolha sozinha. O compartilhamento excessivo, o não dissociar-se do outro, a entrega total... Nocivos. Suicídio do eu, simultaneamente, consciente e inconsciente.
Olho para a mesinha de futilidades que cultivo, cremes, bijus, porta-jóias, e não vejo mais a pedrinha branca. Se perdeu em algum final de faxina. Como tudo, se foi. E aquele lugar comum. Passar. Perder. É ganho. Espaço adquirido para o novo. O sapinho, que gaiatamente é cofre, me olha, sentado e teso por ser gesso. Não ponho moedinhas nele há uns meses. Acúmulo. Mal da humanidade. Libertei-me dessas coisas. E não mais me sufoco pela perfeição de já ter tudo e ter que, a partir daí, somente juntar. Os pequenos vazios agora me completam e me estimulam. Buscar.
O apartamento era pequeno e convidativo. Reservado, blasé, com baguncinhas normais de homem. Ela sentiu falta do negror que ele imprimia e do colorido dos seus discursos. Embora no carro as amenidades tenham se transformado em discussões férreas, o silêncio postou-se desde que o motor fora desligado. Elevador, corredor, nenhuma pressa. Entraram. Senta. Estava tudo desordenadamente no lugar. Velharias de antiquário brigavam com uns designs pós-moderninhos. Talvez disputando méritos.Quem copiou de quem. Releituras e profecias. Suas idéias foram decapitadas pela voz rouca de um jazz que ela conhecia bem. A voz esvaia-se do notebook na mesinha com toalha de couro. Ela adorava couro. Esses pseudo-intelectuais... Logo, a bebida. Nada forte. Ela estava cansada, lembrou.
Me dá um pouquinho d’água anjo. Vou buscar. E ela necessitava conhecer sua cozinha. Ele virou-se e simulou um susto ao vê-la escorada na geladeira. Toma. Quer chocolate? Eu sabia que você não traria a sobremesa. Por isso comprei. Não era uma cantada fail querida, era sério. Minha hipoglicemia pede maiores doses de açúcar. Me deixaria sucumbir na cozinha de casa? A vermelhidão que aflorava o seu blush não foi pelo chocolate que ele não sugeriu pegar na boca dela. A umidade nas mãos não foi pelo agarro de supetão que ele não deu. A disritmia foi um composto pela bebida que ela não provou. Queria borbulhar. Bebeu a água.
Já que estamos aqui, vou esquentar o de comer. Não, não vou entrar no microondas, segurou para não parecer imbecil. Se é que isso era possível. A pessoa recusa a vodka, esquece a sobremesa, e ainda se chama de marmita <>. Ficou lá contemplando a barba dele que parecia crescer naquela hora. Queria que aqueles fiapinhos furassem logo seus lábios, pescoço. Bebeu mais um gole d’água. E ele lá, falando. Tentava prestar atenção, no entanto aquelas veias salientes no braço peludo faziam caminhos denotativos, aéreos, pulsavam, gritavam, chamavam-na. E tudo isso enquanto ele mexiamacarrão na panela.
Ele repetiu mais de duas vezes o nome dela. Denúncia exata da falta de atenção. É, você deve estar cansada mesmo. Não,não, é que sou assim lesada, distraída. Tá com fome? Você não disse que ia comprar a comida? Não conte a ninguém gatinha, não quero ser torturado para que abra um restaurante à milanesa. Ela não conseguiu segurar o sorriso. Tá com um cheiro bom. E realmente ela estava quase dopada naquela áurea feliz. Nem sabia se por sua barriga que estava a roncar clamando por aquele <> ou se por ela própria, suplicando aquela boca. Outro gole d’água.
A água parecia não estar resfriando-a. Estigmatizou-se. Quando deu por si, a mesa posta. Meu filho, você é prendado hein? Já disse pra você não falar meus segredos tão alto princesa. As paredes têm ouvido. O vinho ficou pra depois, o negócio mais prazeroso pra ambos foi sorver aquele líquido negro e borbulhante que adoça as vivências dominicais das famílias felizes. E patrocina as copas mundiais de futebol. E o placar subiu pra ele. Nada de coca light. Era uma mensagem de amor sublime. A forma mais maravilhosa de dizer que ela não estava gorda. Era um <>...
Na sala, o <> que ele aprontara estava matando-a. Mas, não mais do que o roçar dos lábios grossos e macios sincronizados, com as mãos de mesmos adjetivos, que espremiam seu pescoço e ombros, respectivamente, aleatoriamente. E que juntos, aparceirados logo desabrigaram os botões do vestido. Relaxada fora por carícias incestuosas, ditadoras, revolucionárias.
E depois o cigarro, que ela sentiu estúpida vontade de fumar. Preferia o recosto no braço duro, firme, ao travesseiro macio, brando. E refletia. E ele a beijava compulsivamente mesmo no pós. Por que você tem olhos de gata. E ela mordeu o queixo quadrado. E recomeçaram. E podiam terminar a seguir. Mas para quê terminariam? Subverteram a ordem do amor, reproduziram os momentos imagéticos, concretizaram cenas lúcidas desenhadas. Estranharam-se, experimentaram-se, numa brincadeira só deles, venenosa, ácida, doce. E a cama virou mapa, e os braços desterritorializaram-se. E a música havia parado, mas não dentro deles. E era extra, e era festa, por que era sexta. Por um momento ela temeu que pudesse acabar. Lembrou que isso era fato e esqueceu. Continuou.
Às vezes me pergunto como tanta dor pode caber num peito só. Feito roupas de um exército inteiro pra serem lavadas numa única bacia. Duma vez. É domingo após domingo, quando a correria semanal termina e já está prestes a começar. E vem o ócio, o refletir. Entristecer. É dor que não se satisfaz só em chover. É dor que fica palpitando sem porquês, demente, injusta, de loucuras. Perdas, vitórias. Estúpida. Eu e a dor. E eu podia abater o sofrer, antes que ele me abata primeiro. E o suicídio do meu eu se faz ideia. Já matei meu eu físico. Vou matar meu eu–lírico. Terrorismo individual, emocional, parada brusca. Roendo a unha. Rata dos meus próprios tecidos corrompidos. Perdi.
Vida tosca, de coisas-fatos sem explicar. Janelas do amanhã, desesperança. No alcançado, logo plana outro pesar. Dor. Imunda. Cheira a perfume da Avon. Podre como o capitalismo. A mão dói, a cabeça dói. O peito volta a doer. Fingindo ser um romance novelle vague, quando não passa de um trash movie dos anos oitenta. Perder anéis. Ser picada por abelhas. Emocionantemente brusco. Insólito. Pensar com o órgão certo, essa é a resposta pro sofrer menos? Mas as ordens são dadas em outras instâncias. Visceralmente. Baixos instintos. Humanos. Doces palavras sujas que teimam em pular de mim, me possuir, ressuscitando meu eu, meu devir, porviniano. Extremo. Recrutadamente num militarismo patético.
Escrevo na construção entediante de um transe epilético doído puro. Mas como droga, teima em não aliviar. Avalia a dor, que cristaliza, consome. Vai explodir. Sou fraca demais para descrevê-la. Esses devaneios que o teclado não alcança, num imensurismo fatídico, dão náuseas. Livrar-me-hei delas no digitar. Não saem, são noda de caju. Amputar as dores com facas de xingamentos é inútil. Feito estrelas, sentimentozinhos, se rematerializam em abstrações que são. E mesmo nesse estado insano, de tocar teclas, com dedos desesperados, o silêncio, só cortado pelo forró brega antigo ao longe, as extremidades do sofrimento não são tolhidas, moldadas, podadas. Frutos. Desconhecer. Ludicamente, a busca pela ritmia textual equivalente a perfeição sinfônica é o que há pra hoje. Linguagem equivalente ao que os ouvidos captam ao fundo. Batidas feias. Nem os ritos pontuais seriam suficientes. E as palavras jorram. Sinto pena delas. Reflexo. Purificação.
Concentrou-se na janelinha que piscava. Berrava. Lá vinha ele outra vez. O pequeno círculo verde não era sinônimo de outras disponibilidades. Responder monosilábicamente sempre funcionava. Tentou. Nada. Tenho de ir agora. Digitou abreviadamente. Dois pontos, asterisco. Será que ele merecia? Titubeou. Levou em conta a banalização de tais expressões afetivas pontualísticas e afundou o indicador no <>. Arrematou com um tchau. Oh, como odiava os emoticons automáticos. Enfim.
Rumou com aquela extensão de seu braço à opção sair. Subitamente mais uma janelinha azul céu triste ascendeu. Sentiu mais vibrações tremerem suas carnes do que quando soube da possibilidade de se mudar pra longe. Quase viajou mesmo naquela hora, porém sem sequer levantar um dedo. Esperaria. A ansiedade não podia transforma-lhe num desses exemplares <<teens>> de aflição disfarçada de atitude. O pior aconteceu. Pelo menos foi o que avaliou na hora.
Viu vagarosamente – feito filme brega em slow-motion – crescer o retângulo fulgurante. No centro dele, um cheguei boa noite. Demorou um pouquinho. E foi lá procurar as letras de uma resposta descomprometida, inocentinha. Boa, soltou. Como a senhorita está? já pousou os olhos sobre o céu pretão que tem um buraco lindo e branco que reluz?. Ele pegara pesado. Pensou, e no pensamento mesmo, deixou escapulir um desembuchado palavrão de cinco letras. Não poderia ignorar. Foi lá e meteu na caixinha um puro e simples não. E prosseguiu. É foda como nesses nossos tempos a gente fica sabendo dessas coisas belas, naturais, dessa forma. Pronto, calculou. Pois devia preencher esses seus olhinhos lindos com aquela bolinha redonda, gostosa de se ver. Por que ele era assim hein? Tá, vamos lá, e preparou os dedos ágeis. Pois é, pouco tempo, vida cheia, trabalho até a noite. E quando a gente sai, só dá tempo de ver o fulgor do letreiro do ônibus. O jeito é acenar e rezar prele parar. Foi o máximo que conseguiu.
Então esse tumulto diário precisa de descanso beibe. Posso te relaxar com minhas metáforas bestas hoje à noite? Tudo bem, era tudo que ela queria, todavia aceitar assim de primeira... Nãaao. Ok, ok, pendeu o que seria em outra oportunidade um cotoco sobre o <> e o dedo mínimo sobre o <>. E ficou brincando num balanço automático. Casou essas letras em oito pares, achou digno e confirmou. Haveria tempo pra pensar. Ai, como odiava essa instantaneidade aparentada. É, tudo isso me deixa cansada. Arrependeu-se. Além das metáforas, posso lhe oferecer metonímias, massagens, ironias, e um jantar comprado que vou fingir que fui eu que fiz. Que tal? Era realmente irrecusável. Tenho que ver, ponderou. Só te lembro que eu não tenho diabetes, e a sobremesa é por sua conta. Vai trazer o quê? Tá bom xuxu, você me venceu pelo cansaço. Pelo cansaço mesmo. Te busco às 21h na sua casa docinho. E veio logo aquele está <>. Manipulador como sempre.
O relógio caminhava rapidamente e só lhe presenteou com indignos 83 minutos. Que horror. Resignou-se ao banho curtíssimo de 25 minutos. Unhas, maquiagem, cabelo, sapatos, ok. A roupa era pra manhã. Perfeito. Um vestidinho oriental. Tinha que latinizá-lo. Deu acessórios rubros. Estava pronta. Tinha ainda 12 minutos. Abriu o celular pra confirmar a hora. Nem deu tempo. O número jazia lá. E a música que reservara pra ele papocou sonoramente. Jantou sua ansiedade e deixou tocar mais um pouco. Quando a música e a forte vontade de roer a unha que acabara de pintar lhe consumiam fortemente, aceitou a chamada. Ensaiou um hey boy , já tô indo. E foi.