quinta-feira, 7 de abril de 2011

Círculos, curvas, retas


Achei um pedaço de texto de um passado que já se foi. E nem lembrava do não-querer que eu já possuía. Se eu lembrasse, talvez, teria sofrido menos, quando veio o rompimento, que agora já é poeira. Nem sei se o publiquei, e pior, estou com preguiça de procurar. Mais preguiça ainda, de criar algo novo. O cansaço não deixa. Andei pensando que devo ser mais real. Mais lúcida e menos metafórica. Mas a metáfora já faz parte do meu eu. Me sinto difícil por ser formada de figuras de linguagens.


Gosto de escrever como falo. Gosto de escrever como queria pensar. Queria escrever como gosto. Só fico aqui empurrando letras pruma tela de feixes de luz. Acho que estou recuperando uma luz que nunca tive nessa vida. Gosto de retas, curvas e círculos.


Mais ainda do círculo, princípio da vida. Até o que não é bola, roda. E me afundo em pensamentos anelares nessa minha cabeça redonda. E o vento bate em mim. Vem do movimento da hélice do ventilador. O botão da minha camisa caiu. Abriu casas e possibilidades. E meu coração anda sem forma. Meu cacho espiral não incomoda. Minha gestalt reconstitui. E eu dobro nas curvas do caminho. Reza a lenda que há achados por elas.


Sou curva. E toda curva. Uma semi-escoliose assola minha coluna. Meu início é melindroso. Uma inicial, um nome. Acho que a letra foi só o dedo delicado que passou na areia brincando rápido. Deu nisso. Curva. S. De resto, sou mais reta, do que lombar. Não há problemas, nunca gostei de excessos. Pretensão minha ficar aqui tentando traçar anatomia de letra. O l é reta. Também está no eu.


O bom das retas é poder quebrá-las. Desviar sempre dá prazer. O previsível é constante. A surpresa é eufórica. A surpresa quebra o constante. O constante quebrado é eufórico. Tudo é bom e ruim. As coisas só são como são pelo que não é. Eu queria ser todas as coisas. Mas logo me cansaria. Gosto de guardar euforia. Vou seguir na reta até tomar ganas de quebrar, sentir, não ser, cansar, guardar, dobrar na curva.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Me viro hipérbole


Tenho um ano mais que duas décadas. E às vezes me espanto com o que já vivi em números, veias, janelas de ônibus. Não me refiro a quantidades. Já prefiro afundar. Embora bem lá no fundo eu flutue. Minha dispersão é a vertigem-auxílio no enfrentamento do real. Gosto de hiperbolizar. Mas minimizo quando é preciso. Faço do sofrer grande coisa. Descasco alegrias em fundos de poço, pra não explodir em gotículas. Me dizem que sou setenta por cento água. Me seco nas noites. E eu nem tomo água direito.

A chuva é triste. A alegria é multicolor. A gota é multicolor e é da chuva. A gota é triste e alegre. A tristeza é alegre. Divido pensamentos com a chuva. Ela embaça o vidro. Ela o limpa. A rua fica cheia de verrugas transparentes, que se desprendem e escorrem acariciando o vidro sujo. A rua passa, a gota desce, e eu parada. Tenho uma ida. E vivo indo. Passando por tudo. Olhando meio embaçado.

Mas na chuva vi a beleza da vida. Ela deixa a rua bonita. E a gota, é criancinha, coletiva, adorada. Em terra de seca, adorada. Meio círculo, meio oval. A gota é flor. É indício, queda, alvorada. É recado, caminho, fim e princípio. Ela me anima. Estimula, porque só age junta, em grupo, comunidade fluvial na formação do todo: a chuva. A gota sozinha, é bela, mas melancólica. A gota sou eu me mirando nela. É o lado, meu irmão. O pra além, o aqui dentro.

Desejei me transportar pra dentro da gota. E viver ali, vendo tudo e sendo nada. Flutuando.

Flutuei e quase perco o ponto de descer. Dez metros, e um exército de gotinhas me encharcam. Corro e elas esmurram e afagam meu rosto. Me assustam metralhando um telhado de alumínio no qual me abrigo. Vejo milhares de suicídios de gotas. Quando as quedas cessam, lá vou eu me secar com trabalho. Mas tenho a alegria das gotas em mim agora.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sem querer...


Sem querer, pisou na impossibilidade. Com aquele pé amarrado na sandália verde. Pediu desculpas e prosseguiu. Queria saber ser má. Talvez até já fosse. Mas queria um pecado completo. Descaracterizou-se ao sair de casa naquele sábado frio e inconstante sem sua flor amarela. Rebocou-se rapidamente, para ter tempo de pensar. Reparou que suas unhas diziam muito de como a vida andava. Todavia, isso deveria acontecer somente com ela, porque a amiga tinha unhas maravilhosas. Saiu pra comprar frescuras.


Na banquinha de jornal, era a única flor entre verdades e mentiras. Olhos-sorriso e um beleza vazia a encaravam trancafiados numa capa de revista. Era a mais nova milionária relâmpago do país. Passou por sua mente o que faria num desses reality shows. Desistiu da ideia. Seria muito oneroso forjar um personagem simplista e comovente, calçado de opressões que pudesse angariar votos alienados. O pensamento deu rabissaca, bateu na parede, e voltou em forma de vento. Injuriado, levantou sua saia. Sem muito que esconder, tratou de comportar sua barra. Seguiu a ladeira.


Na lesadeza de sair por ai flanando, nem era homem e podia fazer isso, olhou pra baixo e viu. Era um biloto preto, com a pontinha reluzente. Agarrou o negócio, e suas mãos curiosas identificaram um pendrive. Arrodeou com o olhar. Nada de dono do bicho. Vou conferir lá em casa se dá pra identificar , pensou. E lá se foi.


Era um bocado de planilhas. Args sucessivos. Imagine a monotonia de se lidar com esse horror de números. Mas aí lembrou do prazer que sentia quando resolvia equações na 4ª série. Desculpou o dono do hardware. Dono. Sim, porque, metodicamente, em uma das planilhas de nome “Em caso de perda deste, abra!”, o rapaz registrou seus dados sistematicamente. Lá se vai Flor usar seus sms’s do dia. Agora era esperar.


Num é que com dez minutos, o danado do telefone vibra loucamente ao som da Janis Joplin. “Agradeço sinceramente pelo contato. Qual sua disponibilidade de tempo para a devolução?”. Acabou de ler na mensagem de texto. Arre égua! Tinha que pensar. Retornou a cartinha eletrônica com data, horário e local. – Será que ele é bonito? Deve ser um nerdão. Até se animou.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Versos sujos



















Tenho versos impublicáveis

de momentos inesquecíveis
com pessoas indecifráveis

Se toda a dureza do ser
é vontade não resolvida,
me diz por que peitos
choram lamentos devorados,
explodem dores mal consumidas?

Vivo tal, que alegrias apresentáveis
flutuam mais reprimíveis
por mares alucináveis.
Sorriso de quem acabou de beber
felicidade na cara vestida,
como quem arte tem feito
nos olhos abrilhantados
posto que é solta na vida...

Vou deixar meu eu quieto
como quem já quer dormida,
já achei por fora um leito
com mil sopros abraçados
onde me faço acolhida.

E fico por assim,
com ventos incorrigíveis
sóis abrilhantáveis
mentes inexprimíveis.

terça-feira, 29 de março de 2011

Só tenho medo dos imprevistos...


Posto que é chama e que acaba quando nem começou. Me vejo dúvidas na plena certeza de um confiar incerto. Lustre de pingos nos olhos me trazem poréns de voz mansa. Encho-me dos vazios. Agora me resta pormenorizar sentimentos, vivendo nessas migalhas de esperança. Os detalhes, pequenos, se fazem grandinhos quando me vêem distorcida. E lá ia eu desfechar facadas no meu ego, descrevendo o coração, que ano antes, aporrinhado, sofrera assassinato brutal, pra depois então, ressuscitar, cicatrizando tadinho, ser doído de chutes cristãos e malcriados.


Rogai por mim, oh senhor dos corações infelizes. Se perdera ou se jamais tivera sentimentalidades de uma verdade latente, digo em pontos bem apertados, que me volto para o esquecimento. Avalie quem perde de todo um amor verdadeiro que beirou o abandono da loucura. Não me acostumaria a santidade, e cansada estava eu, diante da falta constante de qualquer reciprocidadezinha, mísera, um ai, um oi, um sorrisinho além.


E mais além estava o já pensado. Construí castelinhos de cal e vinho, para esperar um mártir que nunca viria. Seus olhos são cínicos mesmo, de onde eu poderia ter tirado a insanidade de um gostar sem fundamento? Só desgastando veias que já tanto palpitaram de sofrer. Ora se o comentário chega, digo que prefiro pecar por excesso de verdade, do que pela fraqueza covarde de evitamentos. Digo, disse e já não mais direi. Discrições solicitadas, novas transformações em andamento. Me sinto mais mutável que os cabelos da Alcione. Nem me lembre do ébano. Ainda o amo. Me organizo bem, posso planejar amnésias. Só tenho medo dos imprevistos.