domingo, 5 de junho de 2011

Solidões indignas


Sentada num tronco, observava. Céu e mar fundiam-se num negror espesso, convidativo, amedrontador. Uma nuvem rasa e profunda, redonda, translúcida, se misturava ora ou outra com a fumaça que vagarosamente ela expelia pela boca trêmula. Pingavam do céu dois grupos íntimos de pontos luminosos. Pensou de quando oferecera estrelas de felicidade e recebera indiferença. Resolveu amar as estrelinhas. A vista turva já não conseguia distingui-las. Lindas, lá em cima, brilhinhos faiscantes, soltavam beijocas pra ela. E ficou. Outra luz movimentou-se no alto. Numa velocidade que chegou aos seus ouvidos. Lembrou de como podia naquela hora tão mística vir os resquícios de sua época atrapalhar a paisagem que vivia, efêmera. Transformou aquela modernidade em parte de tudo e curtiu. O vento frio soprou nuns ouvidos sonolentos canções embluesadas, gostosas. Ondas vinham branquinhas. Competiam, umas com as outras, batiam-se, desmanchavam-se manhosas e morriam. Era uma solidão acompanhada. Alguém via seu perfil na noite. Olhou, não era ninguém. Tragou uma última vez e apagou a pontinha na areia que nem sequer estava molhada. Só fria.

Abraçou-se a si mesma e enovelou-se nas vistas que tinha. Teve medo daquele momento. Era belo e era forte. Solidões de praia em festas não eram dignas. Levantou-se e bambeou pelo chão de minúsculas montanhas e vales para seres microscópicos. Se sentiu gigante, estava tonta. Decidiu ir embora. Não sem antes dançar a ciranda.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Eu era...


Achei. E fiquei triste por não lembrar de um tempo em que a verdade não doía mais do que cinco minutos. Em que os mandamentos eram sagrados. Em que amor era coisa de gente grande.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Abater, repensar, transferir...


Eu fico pensando porque o senso comum sempre precisa ter razão. Nisso, de dizer transitoriedades constantes, de reafirmar felicidades efêmeras. Você pára num ponto de alegria e ele sequer se estende por duas ou três semanas. Há o algo de um tenso eterno no acabar de momento. Frustrante. O que fazer diante disso? Vou ler Florbela. Vou me pôr Flor na página negra. Vou me transferir em linhas digitadas, digitais. Vou escutar If I fell. Quero abater esse cansaço mental, esse esgotamento psicológico. Vou repensar, antes de novas rearticulações coronárias. Vou beber uns copos de solidão. Ao meu jeito. Plisi bilivi!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

sábado, 23 de abril de 2011

Flores não mofam. Ou mofam?


A menina Flor resolveu brincar de mulherzinha e ajeitou a tela do PC de frente pra sua cama de colcha lilás. Postou-se a pintar as unhas e fez florzinhas nelas. Esmiuçou-se em besteiras que há tempos não fazia. Detestava esses adornozinhos que as mulheres retêm nas extremidades do corpo. Arrumou e lixou as unhas assistindo P.S. Eu te amo. Era lindo e cheio de ressalvas. E ele não tinha ligado, lembrou.


A mãe fizera um delicioso sanduíche de pão amanteigado com galeto desfiado dentro. Ela sempre fazia essas coisas perfeitinhas e trazia no seu quarto, com o prato e o grande guardanapo deixando tudo mais bonitinho. A mãe nem lembrava que antes de ela ter ido, com o pai e o irmão ver a encenação da Paixão de Cristo, discutiram rapidamente sobre essa hipocrisia toda da religião.


Flor desejou do fundo da alma ter tido vontade de ir ver. Quando a mãe chegara, foi ao quarto e perguntou: - Adivinha quem foi Jesus? E lá fui ela divagar... Passaram-se três segundos e a mãe interrompeu dizendo que era o pai do filho da vizinha, ex-amiga da prima. Flor completou dizendo que ela já tava grávida de novo. A mãe já sabia e arrematou que o casal ia se casar. O Jesus daquele bairro de periferia ia casar com a mãe de seu segundo filho. 17 anos e o segundo filho. Deixou de pensar em todas aquelas coisas reais que apeteciam o seu ao redor e vagueou nas ideias do filmeco.


E porque se libertara assistindo um draminha norte-americano de romance. O achara interessante. Não só porque fazia referência a idiotice estadosunidense em algumas falas. Não só pelas cenas engraçadinhas de procura do homem ideal, onde a personagem elencava as prioridades clichês de que necessitava. Mas porque a fez refletir um bocadinho.


Certo, também perdera um amor forte e tal. 9 a 2, sem comparação, ela sabia. Até passara pela mente de Flor que se o dito cujo tivesse morrido teria sido melhor. Todavia, no fundo, foi melhor como foi. Tudo é melhor do jeito que é pra ser. Mas a gente só aprende depois, lembrou. Queria não precisar sentir. Queria ficar assim sem chorar com os filmes. Queria comprar frieza e se divertir sem amar. E ele não tinha ligado, lembrou. Flor não sabia o que queria. Se soubesse, não estaria satisfeita. Não estava satisfeita. E tacou-se ali em cima de um computador que nem terminara de pagar. A mesma máquina que suportara o peso dela nesses dias de feriado prolongado.


Estava meio paranóica. Não sabia como apagar a luzinha verde no canto de teclado, que já estava irritando-a. Essa solidão acompanhada já estava irritando-a. Sempre estava assim. E o pior, não conseguia dizer que amava as pessoas que amava. O que seria isso meu Deus?, refletiu. Precisava escrever pra exorcizar.


Queria não ser culpada disso. Seus esmaltes estavam acabando. Antes fossem só eles os derradeiros. Processos, vertigens, pensamentos. A luz verde continuava ali. Imóvel. Seria preciso desligar tudo para apagá-la? Acabrunhou-se. Flor tinha uma flor amarela de E.V.A em cima da mesinha. Tinha flores amarelas na alma. Pintara florzinhas nas unhas da mão esquerda. Mas essas eram vermelhas. Seria isso um sinal? Achava que não. Recebeu uma mensagem de Feliz Páscoa. Resolveu sair da cadeira de plástico que tão bem acomodara suas reflexões. O pai dissera que se não saísse dali, mofaria. Flores não mofam. Ou mofam? Foi beber água e regar-se pra tentar lavar a alma das florzinhas amarelas. Enfim ele ligou.