sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Hey dicho
















En la orilla de mi cama
nadie nunca puede andar
para veer de fato lo que existe
dentro, dentro, más allá

Como en las orillas del rio manso
desde lejos han de caminar
porque corazón es fondo
lecho es llano, vago de dar.

pero la pose de él, que es mío
es difícil de entregar
fácil, fácil error parece
Para cualquier uno se engañar.

En mi cabecera sólo yo
puedo de todo entrañar
hacer fiestas en mi sueños
pensando que tu luego vendrás.

Las mujeres no pueden darse
como quieren, quieren dar
yo, burlona que logo soy
hago mi lecho, pero no más.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Invariável mente...


Invariavelmente, estou buscando. Pedrinhas, doçuras, extremos. Me exultam infinitos. Me ilustram cores quentes, sons amenos. Me balanço de orixás. Me banho de ilusões diárias, perdidas. Descrevo finduras soltas, sambantes de mim. Distante, etérea, vagosa. Me sufoco assim em pronomes de primeira pessoa. Egoísmo exorcizante. Psicografo subjetividades que não são minhas. Releio, e é como se já as tivesse em decoro. Visto meus dedos de calos e dores de alma. E descanso de mim. Fatiga que destrói meu tédio. Repetições. Vou vivendo...

sábado, 15 de outubro de 2011

Origens do flutu-ando...


Tem desses inconscientes empoeiradas que só modelam de coisas bobas mais relevantes do presente? Tinha disso nas crenças da moça. Ela sorriu e lembrou do causo. Pois que num dia desses de desânimo total resolveu desligar a playlist que ressoava Baden Powell e varou a noite de rua em rua.

Diriam que era louca, por sair em subúrbio tão coloquialmente aterrorizado e aterrorizante. Fazia já duas horas que alguns relógios gritaram meia noite. Mas o ar era tão frio e penetrante que ela até esqueceu tempo, efemeridades.

Feito besta, andou e ouviu tambores na mente. Esticou os braços e a preguiça lhe deu uns tapinhas de leve. Teve vontade de assistir desenho animado. Teve vontade de abraçar um gatinho que passava. Teve vontade de escorregar naquela calçada, topar e cair levemente, como se flutuasse. Varou uma esquina correndo, escorregou e caiu. Deitou, confortavelmente, numa queda em folhas secas tão macias como braços. Suspirou profundo e as folhas eram penas que lhe acariciavam. Nunca se sentiu tão confortável em toda a sua vida como naquele instante.

Sem perceber, já estava de pé. Em outra rua, ainda buscava a noite. Pé-ante-pé, ilustrava o escuro com seus sorrisos. Era alegria de vida que explodia dela. Deu por si e já estava correndo embaixo de árvores que lhe davam sombra na noite escura. Correu e caiu uma queda sem dor. Caiu e sentiu o aconchego do tufo de folhas que a embalava no colo. Do fundo dos olhos fechados, o escuro era mais escuro. O corpo ia e vinha sem sair do lugar. Lembrou de alguma coisa que não tinha a mínima importância e dormiu aquele sono acordado. Caia, caia, caia. E quanto mais caia, menos sentia-se.

Era impossível saber onde começou ou acabou. Mas o despertar, que ninguém sabe de onde vem, abriu seus olhos e ela nunca soube o que tinha sonhado naquela noite. Até que outra noite veio e essas mesmas quedas a repousaram. Sonhos-repetição. Lembrados e esquecidos. Antes que a vida os apagasse, ela resolveu escrevê-los. Freud não explicaria.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Déjavu


E é muito bizarro porque é de uma vez. Você vive por segundos o que a sua mente reconhece como já vivido. E pensa que já foi vivido mesmo. E pensa que não foi vivido nada. A situação é tonta. Sua cabeça roda, e você analisa a repetição. Mas a memória não te dá momento/lugar/tempo em que se foi vivido aquilo. É mais sensação que lembrança. É mais lembrança que experiência. É como marca que nunca foi deixada. É tão latente e confunde tanto por não explicar, que a vida para ali e as respostas não vêm. É como se em algum lugar da infância você tivesse sonhado com aquilo e agora vivencia. E é situação-besteira, banal, mas impressiona posto que não se entende. É e não é. É como que aquela linha, que você não sabia que existia, tivesse quebrado em pedaços de tempo, rapidamente reconstituídos por um olhar de atenção. Vez ou outra, sinto dessas coisas.

Ouvi dizer que estão presentes em várias vidas. Rasgando monotonias. São cérebros tacando facas no tédio pra não deixar a loucura chegar. Ou seria uma lambida na esquizofrenia? Testes esquecidos e não legitimados de previsões de futuros baratos que a gente não releva. É essa mania de não darmos a estima que o nada merece. Pra não cair nessas coisas de amar importâncias, vou ali ler o livro das ignorâncias, de São Manoel de Barros.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Porque sempre amou o negro


Tinha uma caneta e não conseguia mais escrever. Seus dedos, já tão treinados, gostavam de açoitar aquela estrutura tão organicamente hierarquizada. Sopinha de letras com organização.

E seu coração tinha mania de só querer escrever quando sentia vontade. Aliás, ele dava de gritar, fortemente, com ar emprestado do vizinho pulmão. Já que era um coração de mulher, fazia-se flor.

Despetalava-se nas letras, ali postas, redondamente, retamente, certamente... Flores estavam por toda a parte. E não sabia sobre o que escrever. A primavera não tinha acabado e já lhe era crônico falar tão delas. Podia falar da nudez do eu, mas cansar-se iria, e lhe era tão fatigante como amar.

Viu que escrever gastava o coração, assim como amar. Disseram que lhe faltavam ternura e confiança. E era verdade. A verdade era forte, e tão pronto não parecesse, ia lhe comendo, inconscientemente, até lhe faze escrever asneiras numa tela de fundo preto. Anormalidade.

“Essa menina é toda ao contrário”, seu pai lhe dizia. Não apenas por deixar o ventilador ligado no quarto vazio, enquanto dormira na noite quente com ele desligado. Mas sobretudo pelas roupas coloridas, pelo jeito temperado, pelas falas desvairadas e por não querer ir à missa no domingo à noite. Viu que ele entendia mesmo das coisas.

Gostava tão plenamente de ser assim, avessa, quanto gostava de escrever besteiras troçadas na página negra. Lembrou de quando era criança e queria ser negra. Achava tão linda a cor morena. Parecia-lhe até, que quando tocava o braço da amiguinha, ele era mais macio, mais carinho. As vozes dos cantores eram mais lindas, e o cheiro da mãe era mais belo. Não tinha o balanço de samba que a amiga tinha. Nem os cabelos tão lindos e negros que completavam a pele escura. Era pois, amarela, sem graça, sem samba, sem cheiro, sem voz ou maciez.

Um dia ouviu dizer que os negros envelhecem mais devagar. Lembrou da avó, e de como ainda era jovem e bonita. Depois foi sabendo das coisas. Navios, porões, correntes. Conheceu orixás, terreiros, origens. Teve sorte. Invejou tanta força naquele sangue que também corria em suas veias. Ficou feliz por saber que sempre foi negra. Deviam ensinar essas coisas direito na escola. Ficam fazendo frustração em criança. Maldade.