domingo, 6 de novembro de 2011

Não dizer também faz mal














Ela solta:
- Você é uma besteira gostosa e prejudicial...
- Valeu!

Silêncio.

- Sabe...
- Diz.
- Nunca pensei que eu pudesse...
- Pudesse o quê?
- Ah, deixa pra lá!
- Caralho, eu odeio quando tu faz isso, Flor!
- Meu filho, não vai adiantar eu te explicar.
- Tente!
- Não, não. Deixa...
- Tá certo!

Silêncio.

- Mas...
- Hum?
- Realmente, eu acho...
- O quê?
- Tu não ia entender...

No fim, ambos sabiam que ele entendia. Mas certas coisas não precisam ser ditas. Outras sim. Pecaram por omissões, se fizeram mal por vazios.

Silêncio.

- Porque tu é assim hein?

E ela não viu, mas ele tinha água nos olhos. Arrependeu-se do que perguntara.
- Porque eu tenho medo...
- Oh xuxu!

E ela fez-se proteção. Enxugou inseguranças, tocou lábios no sal. Silêncio. Abraços-conforto deram continuidade ao que não sabiam no que ia dar. O balanço da traseira do ônibus fez menear aqueles corações, tão pedaços, que não queriam unir-se. Puro medo.

Silêncio.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Missiva de abandono


A lua tava ali sorrindo pela metade, e eu aqui, me enchendo de agonias. Tenho muitos vocês dentro de mim. Verdadeiros, distorcidos, degenerados. Tenho muitas tristezas acumuladas, e não quero mais adiar explosões completas. Cometi o erro acertado de sentar e te pôr em letras, visto que já não posso mais deletar essas linhas, confesso. E antes que o pior se enchente, vou ali ter uma boa noite de sono dessa semana de cansaços.

Perdi uma lágrima pedra no olho. De raiva, em flor, repetida. Tenho uma aspa comprometedora. E se é neste momento, que me acalanto por escrever de ti, me despeço do que ainda não temos. Antes perder o não dado, que dar o si que já não se tem. Antes devolver-se ao que se tinha antes, que ir mergulhar em estreitos. Antes destruir o não feito, que costurar nadas soltos.

Pensar é o mal. Não, sentir. Sentir é dor e prazer, que, no fundo, é dor também, dor de prazer. Pensar é o mal. Voltas e voltas. Go or not go. Dizem preu ir. Não. Vou ficar, rasgando coisas, separando guardados, aguardando futuros, dizendo não pra quem eu tenho que dizer. Dessa vez, tuas aspas me cortaram. Dessa vez, elas mesmas, hão de me ajudar no nosso bem mal, no nosso mal bem. Separemos. Antes que vidas se percam, ou se encontrem em barroada. Não. Não agüento mais tropicões. Adeus.

domingo, 30 de outubro de 2011

Tão certo

Era uma petúnia e estava cansada. Era uma rosa e não tinha volumes. Era um cravo e jazia desboto. Era uma orquídea e permanecia virgem. Era uma tulipa e se mantinha aberta. Era uma Hortência e tampouco se alegrava. Era uma margarida e se sentia apática. Era um crisântemo e ficou feliz. Era um jasmim e não tinha leite. Era um girassol e não movia brilho. Era uma flor e, certamente, não viveu as mais lindas efemeridades. Tão certo quanto os espinhos andaram por lhe ferir.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Se eu...

Tem horas, que é melhor escrever com a letra dos outros pra dizer o que a gente tá sentindo...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

[Amor em tempo de redes sociais] O início


-Ei, você deixou cair isso!

Ela se vira majestosamente...

- O quê?
- Um pedaço de beleza aqui, ó...

Ela sorri pequeno! Tinha medo dessas cantadas bregas, mas fazer o quê, se ao menos eram engraçadinhas.

- Me desculpe! Foi mal, foi mal... Esse pedaço de beleza não pode ser seu. De jeito nenhum! É só olhar pra ti, lindeza, que a gente vê que a sua beleza tá mais que completa.

E ela não pôde conter. E um brilho pintoso rasgou a cena. Era um super sorriso que se abria na boca fina.

- Cantada barata viu!
- Barata, mas lhe arrancou felicidade e me deu a belezura do teu sorriso. Vai ser linda assim lá no papel de parede do meu Mac, juntinho de mim, na prainha!

E ele era desconcertante.

- Rapaz, eu tenho que ir. Você pára as moças assim, aleatoriamente, pra falar de beleza e sorrisos, é?
- Que nada moça bonita! Foi tu que lascou esse jeito de andar no meio das minhas fuças. Ai, dei de me encantar. Sabe...

Silêncio. Ela que já ia virando-se para partir, sentiu um algo que lhe puxou a ficar. Perguntou.

- O quê?
- Gosto de números. Quando eu era pequeno, decorava número de tudo. Nem sei se ainda consigo. Você podia me ajudar...
- Hum, até já sei. Mas desculpa, não costumo dar meu número pra qualquer pessoa.
- E eu sou qualquer pessoa? Avistei tu de longe, e quis até te ajudar, catando do chão o pedaço de beleza, que por sinal, nem era seu...

Mais um sorriso arrancado.

- Podia ao menos conversar comigo. Posso te acompanhar?
- Acho melhor não. Não te conheço...
- Muito prazer, me chamo Pedro Andrade Feitosa Leite. Meu CPF é 123 477 777...
- Tá bom, vai...
- Então, como ia dizendo...
- Mas vou avisando logo, a rua é pública e você pode ir andando ai, só não tente nada viu?
- “A noite ascendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão”.
- Oi?
- Nada não!
- Foi bonito o que você disse.
- Mas não foi eu quem disse. Foi o Quintana. Mário.
- Hummm
- Estamos conversando há três minutos, eu já posso saber o seu nome.
- Cuidado!

E ela puxou ele duma vez.

- Tu é abestado é? Atravessa a rua sem prestar atenção!
- Mas eu tava com você. Você salvou minha vida. Sou-lhe grato. Agora eu preciso te agradecer, e, pra isso, preciso saber o seu nome.

Ela, calada, sentiu um vento frio, da noite que já sorria por entre nuvens amareladas.

- “Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem...”

Ele continuou, o que a deixou surpresa...

-“Seu nome não está nos livros”.
- “É feia, mas é realmente uma flor...”
- Ah, com isso eu não posso concordar! Mas como assim, seu nome é Flor? Sua mãe era hippie?
- Era. Já vi que você gosta do Drummond. É, você não é de todo mau.
- Você pode descobrir mais de mim. Te dou meu facebook.
- Quem disse que eu quero?
- Pois me dá seu telefone, que eu não te dou meu facebook.
- Não vou dar o número do meu telefone para um louco que acabei de conhecer, e que é tão lesado, que quase ia sendo atropelado!
- Por quê?
- Eu preciso responder?
- Claro!
- Porque celular é uma coisa muito pessoal. Você pode falar comigo instantaneamente, me encontrar onde eu estiver, é muito impessoal para se dar para estranhos...
- Tá, então vamos por partes. Você me disse seu nome. Não devem ter muitas Flores no face. Vou te achar. Você usa muito ele?
- Uso. Tô meio viciada...
- Você é bloqueada?
- Como assim? Ah... Não! Isso é besteira.
- Pois tá parecendo...
- Hã?!

E aqueles olhos pretos dela se encheram de uma fúria vermelha e rosa.

- Qual teu sobrenome?
- de Sá.
- Humm. Agora é fácil. Flor de Sá! Tudo bem, tu não me deu teu telefone, mas eu posso descobrir o que você faz, onde você trabalha, onde estudou, quem são seus amigos, que lugares você freqüenta... Até seu endereço, se você for chegada num chek-in! Mesmo assim, tu não vai me dar teu número?
- Claro que não. Celular é demais!
- Tá certo. Vou desvendar seus gostos, ver sua idade, ver que cantores você escuta. Vou saber da sua rotina! Vou interagir contigo. Mas queria você analógica.
- Ave! Analógica. Mas tu perturba viu?!
- Ainda mais linda enfezada! Eita, que a raiva é mais divina que a calmaria.
- Cara, desiste! Tô indo aqui pegar meu ônibus...

E ela saiu andando. As costas queimavam, e a vontade de virar e olhar o porquê de ele ter parado de segui-la foi maior. Ele gritou:

- Eu só preciso de oito números, que vão me garantir a felicidade o resto do dia. Plisi, dont go! Faça alguém feliz. Me faça feliz.
- Ai como é brega...
- O que seria do mundo sem os excessos de breguice?

E dessa vez, foi ele quem sorriu. Amplo, calmo, encanto. Ela estremeceu. No fundo de sua alma, alguém sussurrou: “lerda!”. Ela, então, tirou da bolsa, papel e caneta. E quando olhou pra frente, viu felicidade materializada naquele olhar de menino abobalhado.

- Taqui ó. Agora, por favor, sem excessos.
- Fica parada!
- Pra quê? Vai me assaltar?
- Não, só vou te roubar coisas mais pra frente. Agora só quero guardar na mente a tua beleza completa. Sua linda!

E saiu correndo pela rua, balançado por sorrisos múltiplos. Ela ficou ali, besta e até perdeu o ônibus.