sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Pela janela do ônibus


Quando a sua vida é uma confusão de pensamentos, as músicas ficam mais molhadas, as vidraças mais embaçadas, os sentimentos mais carcomidos. Fica aquele velho fone de ouvido tagarelando letras insuportavelmente apropriadas, enquanto você olha pela janela do ônibus, analisando uma correria de casas. Vazio. Você fica se imaginando num filme Ind-cult-bacaninha qualquer. E seu drama fica mais drama, sua tristeza mais tristeza.

Daí vem um batalhão bruto de lembranças, feito polícia em greve. Boom. Desce a primogênita, escorre e salga sua boca. Imunda. É aquela hora em que você queria um braço. Aquele braço. Aquele braço que te pede cafuné. Aquela hora em que uma flor seria a água mais doce de três dias de sede. E a vida passando. Lá fora.

Disseram que você tem um coração mudado. Então você acha que tem um coração abestado, que bate demais. Roga, sonega, implica com ele. Mas o sangue que corre ali é seu, e você nem se toca. Você está tão enclausurado em si, nessa coisa besta que chamam de alma, achando que a vida corre fora, corre, que não liga. E você lembra. Porra de memória. Tá ruim ser ser humano. Então você pensa que devia era ter nascido peixe. Só o filé, seria.

domingo, 6 de novembro de 2011

Não dizer também faz mal














Ela solta:
- Você é uma besteira gostosa e prejudicial...
- Valeu!

Silêncio.

- Sabe...
- Diz.
- Nunca pensei que eu pudesse...
- Pudesse o quê?
- Ah, deixa pra lá!
- Caralho, eu odeio quando tu faz isso, Flor!
- Meu filho, não vai adiantar eu te explicar.
- Tente!
- Não, não. Deixa...
- Tá certo!

Silêncio.

- Mas...
- Hum?
- Realmente, eu acho...
- O quê?
- Tu não ia entender...

No fim, ambos sabiam que ele entendia. Mas certas coisas não precisam ser ditas. Outras sim. Pecaram por omissões, se fizeram mal por vazios.

Silêncio.

- Porque tu é assim hein?

E ela não viu, mas ele tinha água nos olhos. Arrependeu-se do que perguntara.
- Porque eu tenho medo...
- Oh xuxu!

E ela fez-se proteção. Enxugou inseguranças, tocou lábios no sal. Silêncio. Abraços-conforto deram continuidade ao que não sabiam no que ia dar. O balanço da traseira do ônibus fez menear aqueles corações, tão pedaços, que não queriam unir-se. Puro medo.

Silêncio.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Missiva de abandono


A lua tava ali sorrindo pela metade, e eu aqui, me enchendo de agonias. Tenho muitos vocês dentro de mim. Verdadeiros, distorcidos, degenerados. Tenho muitas tristezas acumuladas, e não quero mais adiar explosões completas. Cometi o erro acertado de sentar e te pôr em letras, visto que já não posso mais deletar essas linhas, confesso. E antes que o pior se enchente, vou ali ter uma boa noite de sono dessa semana de cansaços.

Perdi uma lágrima pedra no olho. De raiva, em flor, repetida. Tenho uma aspa comprometedora. E se é neste momento, que me acalanto por escrever de ti, me despeço do que ainda não temos. Antes perder o não dado, que dar o si que já não se tem. Antes devolver-se ao que se tinha antes, que ir mergulhar em estreitos. Antes destruir o não feito, que costurar nadas soltos.

Pensar é o mal. Não, sentir. Sentir é dor e prazer, que, no fundo, é dor também, dor de prazer. Pensar é o mal. Voltas e voltas. Go or not go. Dizem preu ir. Não. Vou ficar, rasgando coisas, separando guardados, aguardando futuros, dizendo não pra quem eu tenho que dizer. Dessa vez, tuas aspas me cortaram. Dessa vez, elas mesmas, hão de me ajudar no nosso bem mal, no nosso mal bem. Separemos. Antes que vidas se percam, ou se encontrem em barroada. Não. Não agüento mais tropicões. Adeus.

domingo, 30 de outubro de 2011

Tão certo

Era uma petúnia e estava cansada. Era uma rosa e não tinha volumes. Era um cravo e jazia desboto. Era uma orquídea e permanecia virgem. Era uma tulipa e se mantinha aberta. Era uma Hortência e tampouco se alegrava. Era uma margarida e se sentia apática. Era um crisântemo e ficou feliz. Era um jasmim e não tinha leite. Era um girassol e não movia brilho. Era uma flor e, certamente, não viveu as mais lindas efemeridades. Tão certo quanto os espinhos andaram por lhe ferir.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Se eu...

Tem horas, que é melhor escrever com a letra dos outros pra dizer o que a gente tá sentindo...